Tell Me You Love Me

Matéria originalmente publicada no site Séries Etc.

O laço mais complexo que pode existir entre dois seres humanos é o relacionamento amoroso, afetivo - dividido com o eco em torno de quatro paredes. Os seres humanos são por si só cercados de tabus, paradigmas, anseios, receios e insegurança. Quem não ama ouvir que é amado? Melhor: quem não ama se sentir amado?

Partindo desta premissa - e a de que todo mundo é fodido por natureza - a HBO Brasil lança no dia 8 de junho, sem muito alarde, a série “Tell Me You Love Me”, que conta o dia a dia de quatro casais: o de 20 e poucos anos, o de 30 e poucos anos, o de 40 e poucos anos e, dando um salto maior, o casal de 70 e poucos anos.

Parando aí, a série já seria fantástica, pois aborda os grandes dilemas de cada faixa etária (chegaremos aos dilemas), mas ela vai além. Aproveita-se por estar em um canal a cabo (nos EUA também é da HBO) para virar quase um soft-porn europeu. Você aí de 20 e poucos anos, transa, não? De 30 também, certo? Então, na série não teria porque o sexo não fazer parte da vida de um casal. Em Diz Que Me Ama – título nacional – não há espaço para falso moralismo. Como disse Rodrigo Garcia, um dos diretores da série, mente por trás da também excelente “In Treatment”: ”Esse negócio de que mulher se cobre com o lençol até o pescoço depois do sexo não existe”.

Série é criticada por mostrar demais

Em uma coletiva de imprensa, a primeira pergunta que Cynthia Mort, criadora da série, foi obrigada a responder, foi a seguinte: “E aí, Cynthia, é tudo verdade como parece?”.

As cenas de sexo em “TMYLM” são de um realismo assustador. Apesar de negar veemente que seriam de fato, reais, Mort e sua cria foram - e estão sendo - severamente criticados - aqui, negativamente - pelo uso em excesso de sexo e, principalmente, nudismo frontal.

Talvez o que mais perturbe são as cenas que parecem ser protagonizadas por mim ou por você, pois são simplórias ao extremo: masturbação, sexo oral, aquela briga em um domingo ocioso que logo se transforma em uma inesperada rapidinha no sofá. O maior motivo das críticas ao programa não é apenas a sua simplicidade ao abordar e desconstruir relacionamentos e sexo, mas seu realismo: Tell Me descarta qualquer “glamouralização” hollywoodiana, mega produção ou maquiagem para esconder mamilos, pênis, enfim, ângulos pouco convencionais das genitálias do sexo masculino e feminino.

Os casais

Michelle Borth e Luke Farrell Kirby interpretam Jamie e Hugo, respectivamente, casal de 20 e poucos anos dividido por atos impulsivos ligados a qualquer jovem e a vontade de oficializarem sua longa relação trocando alianças. Em determinado momento do episódio piloto, os dois conversam:

JAMIE: Você flerta e eu odeio!
HUGO: Eu preciso estar apaixonado por alguém que confie em mim.
JAMIE: Você deveria estar. Só não acho que esta pessoa seja eu.

Porém, como qualquer jovem casal, pecam pela falta de segurança e maturidade em seu relacionamento. Hugo flerta com outras mulheres e Jamie não só sabe como detesta. Quando ela suplica ao cara por uma maior segurança, mais gestos de afeto – como quando ela pede para ele dizer que a ama e que nunca a irá trair -, ele responde o que todas as mulheres nunca desejariam ouvir:

HUGO: Não posso dizer isso. Não sabemos como será o amanhã, Jamie. Você realmente acha que serei o último cara para quem você vai dar na vida?

E o relacionamento começa, vagarosamente, a desmoronar. Alguns episódios depois, Jamie vai à procura de terapia e acaba no escritório da Dra. May Foster.

Sonya Walger (a Penny de Lost) e Adam Scott interpretam Carolyn e Palek, respectivamente, casal de 30 e poucos anos que tem um casamento estável, porém desequilibrado emocionalmente pela incapacidade de conseguirem ter um bebê. Ambos são saudáveis e sadios, os espermatozóides de Palek são “vencedores”, segundo seu médico, mas o casal já tenta a mais de um ano ter um filho, em vão.

Os dois protagonizam as maiores cenas de sexo explícito do programa, afinal, buscam incessantemente, um terceiro membro para a família - e o sexo em busca de um bebê não é o sexo apaixonado que um casal jovem faz quando volta pra casa, é uma transa rápida, fria, sem emoção: quase um estupro. Não. É um estupro. Com a frustração pelo insucesso, os dois acabam procurando uma terapia de casal com a Dra. May Foster.

O terceiro casal é formado pelos atores Ally Walker e Tim DeKay, que interpretam Katie e Dave, respectivamente. Os dois formam provavelmente, o casal mais fucked up do seriado. Katie entrou nos 40, é sozinha, tem um casal de filhos para cuidar e poucas amigas. Dave, é distante, parece ter repulsa por Katie e os dois, casados há 15 anos, não transam a mais de um ano – o que não impede Dave de, vira e mexe, se masturbar na cama.

Katie, mais insatisfeita que Dave, tenta reverter a situação - sem muito sucesso -, e ela acaba no consultório da Dra. May Foster, mas Dave se recusa a participar do que seria uma terapia de casal.

O último casal é representado pelos atores Jane Alexander e David Selby. Alexander interpreta justamente a Dra. May Foster, cuja presença na tela torna o seriado ainda mais sofisticado, pois após abordar casais problemáticos em crises de fidelidade, gravidez e sexo com seus cônjuges, o show oferece os anseios da psicóloga e seu casamento de 43 anos de duração.

Por ela e seu marido fazerem parte da chamada terceira idade, a TV convencional – não falo da TV aberta, mas outros canais a cabo - provavelmente nos pouparia de cenas de sexo envolvendo os dois. No duro? Por quê? Certo que idosos de 70 e poucos anos de não fazem tanto sexo assim, mas May e seu marido Arthur transam que nem coelhinhos: o terceiro episódio da série se encerra com os dois fazendo sexo e May sussurrando ao ouvindo de Arthur:

MAY: Me come! Me fode! Entra dentro de mim.

A série não só é excepcional em seu visual e realismo, mas em sua concepção de que todos os casais de diferentes faixas etárias são iguais: as mulheres de 20 e poucos têm medo de infidelidade, as de 30 de não conseguirem constituir uma família e as de 40 de viverem sozinhas, sem sexo. Os homens de 20 e poucos anos têm dificuldade em se manter em um único relacionamento, os de 30 em acompanharem persistentemente o desejo de sua mulher em ter um filho e os de 40 em manterem o desejo e prazer de fazer amor com sua parceira.

É uma generalização, que verdadeira ou não, dá certo e transforma Tell Me You Love Me na melhor estréia da temporada passada de seriados norte-americanos.

Tell Me You Love Me
Aos domingos, às 22h00
Demanda: 10 episódios
Canal: HBO Brasil
http://www.hbo-br.tv/

In Treatment

Lembro que em uma das vezes que sentei na cadeira defronte ao meu psicólogo, quando ainda não estava acostumado com toda aquela situação paciente-médico, imaginei se não haveria uma câmera escondida em meio a livros. Câmera que posteriormente serviria para arquivar cada palavra que eu esboçasse pronunciar naquele escritório.

Os anos se passaram e levaram com eles aquela idéia de desconfiança. Terapia, análise ou como queira chamar, tornou-se parte fundamental de minha formação como pessoa, independente do tipo de pessoa que me formou.

A idéia de vigiar ou ser vigiado sempre me intrigou. Talvez eu tenha assistido Arquivo X demais. Talvez alguns traumas perdurem por toda nossa vida. Talvez vigiar, espiar (sic Bial), xeretar a vida alheia seja dos maiores prazeres que o ser humano possa ter. Eu sei que eu gosto. Confesso até me identificar com o Peeping Tom do famigerado Michael Powell.

Não é todo dia que se vê seriado bom todo dia

Agora posso culpar a HBO por agravar ainda mais esta minha necessidade de observar. Estreou em janeiro nos EUA, em meio ao caos da recém encerrada greve dos roteiristas, In Treatment, série baseada no programa israelense de mesmo nome (Be’Tipul) criado por Hagai Levi.

Produzido, desenvolvido, escrito e dirigido por Rodrigo Garcia (diretor de obras-primas televisivas como Tell Me You Love Me, Amor Imenso, A Sete Pamos e Família Soprano), o programa já seria revolucionário o suficiente se só e simplesmente abordasse as consultas do Dr. Paul Weston e seus pacientes, mas Em Terapia não só o faz como o faz diariamente.

Estrelado por Gabriel Byrne e pela esplêndida duas vezes vencedora do Oscar Dianne Wiest (Hannah e Suas Irmãs, de 1987 e Tiros na Broadway, de 1995), entre outros, a nova atração da HBO norte-americana foi ao ar five days a week na TV estadunidense e será exibida no mesmo formato no Brasil. Por nove semanas, 43 episódios com meia hora de duração serão exibidos de segunda à sexta. Um colosso, não?

Como funciona

Às segundas-feiras, o Dr. Paul Weston trata de Laura (Melissa George), uma jovem e atrativa médica que se consulta com Paul há cerca de um ano. Laura vive uma crise em seu relacionamento e vive um dilema: terminar de vez ou casar com seu namorado Andrew. Mas este dilema parece ser reduzido a nada quando Laura revela a Paul que está apaixonada por ele desde a primeira vez que o viu.

Às terças-feiras, é a vez de Alex (Blair Underwood), um arrogante piloto de caça da marinha que exige usufruir sempre apenas do melhor disponível. Alex é um novo paciente e exige que Paul mantenha com ele a fama de “melhor psicólogo da cidade”. O que leva o piloto ao consultório é o fato de ter explodido uma pequena escola iraquiana e ter matado 16 crianças que nela estudavam.

Às quartas-feiras quem vai ao consultório é Sophie (Mia Wasikowska), uma precoce ginasta e adolescente que tem como meta atingir o índice olímpico. Sua vida desmorona após ser o pivô de um grave acidente. Ela então é encaminhada ao psicólogo para que seja determinado se a menina tem ou não tendências suicidas, já que aquele não foi o único grave acidente em que esteve envolvida.

Às quintas-feiras Paul trata de um casal: Jake (Josh Charles) e Amy (Embeth Davidtz). Este é o dia que não conseguiu me fisgar ainda. Enquanto Jake é um músico sem sucesso, Amy é uma executiva premiada com uma bela carreira a conta bancária. Após passarem cinco anos tentando engravidar, finalmente conseguem. Porém, Amy começa a ter dúvidas se o bebê viria em boa hora, pois sua vida profissional vai maravilhosamente bem. Já Jake não admite o aborto, repudia a terapia e acredita que Amy não é fiel a ele.

Às sextas-feiras, oh my god. O melhor dia de todos. O Dr. Paul Weston, parecendo carregar um piano nas costas após uma semana de consultas intermináveis, recorre a Gina (Dianne Wiest), psicóloga aposentada e ex-mentora de Paul. Na primeira sexta-feira do programa, Paul decide ligar para Gina, pois quer conversar. Os dois não se viam há anos, desde que uma briga os separou. Neste meio temo, Gina perdeu seu marido, completou 60 anos, se aposentou e começou a escrever um livro com suas memórias. Quando indagado por Gina sobre o porque de seu telefonema, Paul afirma estar perdendo a paciência com seus… pacientes.

O melhor de tudo é que se você não gosta de um dos pacientes ou da dinâmica que tal dia da semana tem, pode simplesmente pular aquela seção e ir para outra, se bem que não recomendo fazê-lo, pois pequenos detalhes podem se desencadear ao fim de tal episódio e não ter nenhuma relação com o paciente do dia.

Tratamento pós Sopranos

O mais impressionante é a atuação de Gabriel Byrne como Paul, um sujeito de 50 e poucos anos, dois filhos e uma filha e um casamento mais para lá do que para cá. Paul atende em seu próprio lar e é acusado por sua mulher Kate (Michelle Forbes), de ser um psicólogo cheio de gás em seu consultório e um velho sem vida dentro de qualquer outro cômodo de sua casa.

A veracidade das consultas, daqueles 22 minutos de televisão onde o paciente fica de frente para Paul contando de sua vida é de um realismo absurdo. A série é viciante a um ponto que você não quer saber o que vai acontecer na próxima seção de tal paciente: apenas o próximo episódio já basta. Talvez não seja uma questão de vício que nos prende em frente a TV e sim a esperança de achar ali, um pouco do que vivemos aqui.

Talvez Em Terapia seja demais para nós, a frente de seu tempo, não sei. Ou talvez Gabriel Byrne seja aquele ator que não nos cansa, que nos faz ter vontade de ficar vinte horas com a cara colada na TV enquanto magistralmente imita todos os “errs”, “hmmms” e outros ruídos diversos que psicólogos da vida real rugem quando confrontados com nossas indagações tão mesquinhas e mundanas.

Após o fim de Família Soprano, é o segundo show que a HBO leva ao ar cujo um escritório de psicanálise é o tema principal da série (o primeiro foi Tell Me You Love Me). Pelo visto os executivos da emissora estão desesperadamente precisando de terapia. Eu também. Todos os dias.

* * *

In Treatment estréia nesta segunda-feira (12/5) na HBO e será exibida de segunda a sexta, à partir das 20h25.

Laura Taylor

Antes da entrevista, a maior preocupação de Laura era com as respostas: “Meu português é meio zoado, morei muito tempo fora, você corrige se eu falar algo errado?”.

“Relaxa, não se preocupa”, respondi.

Laura Taylor, apesar de mineira, morou boa parte de sua vida na Nova Zelândia. Após surgir na noite como integrante do coletivo de DJs Killer Shoes, resolveu tentar a sorte na seletiva em que o Bonde do Rolê organizou em parceria com a MTV na busca de uma nova front woman que substituisse Marina Vello. Se deu bem: ao lado de Ana Bernardino, Taylor é a nova vocalista do grupo.

Conversei com Laura poucas horas antes de ela embarcar para Portugal, onde foi ao encontro dos outros integrantes da banda. Em um papo descontraido, rápido, mas divertidíssimo, Laura fala sobre suas expectativas, sonhos, Rodrigo Gorky, Pedro D’Eyrot, Ana Bernardino, Killer Shoes, a distância da família e dos amigos, entre outros assuntos.

Da onde veio a vontade de ser vocalista do Bonde?

LAURA TAYLOR: Eu sou performatica, né, meu bem. Ser só DJ não estava me satisfazendo. Uma cabine é pouco, eu quero palco.

Você se considerava fã da banda antes da seletiva?

LT: Sim, fazia parte do set das Killers [Shoes].

O que achou da Ana ter entrado na parada? Se você se inscreveu no concurso é porque queria ser a frontwoman. Como é ser uma das?

LT: Eu acho lindo, Ebony and Ivory [referência a Paul McCartney]. Os meninos não poderiam ter escolhido melhor. Eu não sei como será, estou morrendo de medo, sonhando muito, muita coisa bizarra. Ontem sonhei que fazia a minha mala.

O sonho que durou a noite inteira e foi uma mala muito bem feita! Eu dobrei tudo, escolhi cada roupa, arrumei a necessaire, passei o que tinha que passar, peguei as roupas do varal, organizei minha pasta de documentos… fiz tudo! Acordei exausta e com nada arrumado. [risos] É muita ansiedade para uma pessoa só!

Você tem mantido contato com o Gorky e o Pedro? Vocês já se conhecem bem?

LT: Estamos construindo uma amizade muito bonita e especial. [risos]

Qual a sua maior referência musical? [Nesta hora, peço para ela falar o primeiro nome que vier em mente, Laura não só responde como indica o vídeo abaixo]

LT: O B-52’s!

Como espera que fique sua vida agora? Está preparada para mil viagens, ficar longe da família e dos amigos?

LT: Mil viagens, sim! Ficar longe da família e amigos, mais ou menos… O cansaço, no way! [de jeito nenhum].

Quando o CSS surgiu eles diziam que criaram a banda para beber de graça nas festas. Com o tempo, se tornou algo sério. É com este pensamento, se divertir, que você encara essa nova etapa da sua vida, ou você almeja isto como um trampolim para, de repente, algo ainda maior? Exagero ou não, é a hora e vez de Laura Taylor, não?

LT: Eu estou aqui para beber de graça nas festas! [risos] Mentira. No dia em que eu ganhei, liguei para meu pai e gritei: “Pai! Ganhei! Vou ficar famosa”, e ele respondeu: “Não meu bem, famosa você vai ser quando casar com a Madonna”. Então isto aqui é um trampolim para casar com a Madonna, to make daddy proud! [para deixar meu pai orgulhoso].

E a Pequeña Laura Taylor? Vai fazer participação no Bonde?

LT: Claro! Onde tem whisky, tem La Pequeña.

O Killer Shoes morreu com a sua saida?

LT: Não, nunca. O Killer Shoes não é só discotecagem, é um estilo de vida!

Quem manda mais? Cash, Dylan ou quem se importa?

LT: Não tem como comparar.

Me da uma exclusiva quando você for o highlight do Coachella e Glastonbury? Junto com as passagens?

LT: Te dou demais, filho!

Por fim, mas não menos importante: Já está preparada para ser odiada pelo povinho recalcado do Brasil?

LT: To demais, filho!

Crédito das fotos: Bárbara Dutra

Hercules & Love Affair

Antes de entrar no assunto H&LA, eis um nome a ser aprofundado: DFA Records.

DFA Records

Fundada em 2001, a DFA Records é hoje, ramificação da EMI em música eletrônica. O selo é braço independente da major e possui contrato de exclusividade na produção e distribuição de seus artistas.

Criada por Tim Goldsworthy (produtor do Cut Copy), James Murphy (do LCD Soundsystem) e Jonathan Galkin, a DFA é casa de diversos nomes do eletrônico como The Rapture, Black Dice, Hot Chip e o próprio LCD Soundsystem, entre outros.

Nas rédeas da produção o selo vai além: para ficar apenas em alguns nomes, produziu e remixou desde 2001, artistas como Le Tigre, NIN e Chemical Brothers, além dos já citados Hot Chip e LCD. No subgênero dance-punk a DFA é sem dúvida propriedade no assunto: seu catálogo de bandas deixa isto evidente, pois a grande maioria bebe da cena underground nova-iorquina do final da década de 1970 (estamos falando do groove de bandas como Talking Heads, Blondie e Liquid Liquid). A grande diferença destas bandas de ontem para as de hoje é a sonoridade mais suja, barulhenta, às vezes até mais pesada.

Hercules & Love Affair

Outra banda que desde 2007 tomou a DFA como lar é o Hercules & Love Affair. Há quem chame de banda de um cara só (Andy Butler, DJ e produtor que dispensa comentários), há quem chame de duo (Butler + Antony Hegarty, que empresta sua voz em cinco faixas). Porém, o H&LA também pode ser considerado um coletivo (formado também por Kim Ann e Nomi) vindo de Nova York com capacidade e energia suficiente para despertar a cidade mais populosa dos EUA do marasmo musical que se enfiou nos últimos anos.

Seu auto-intitulado álbum é como um soco no estômago: curto e direto. O primeiro single, “Blind”, é sucesso no mundo todo desde 2007 e já deixou Frankie Knuckles de queixo caído – o DJ norte-americano, um dos grandes precursores da house-music, fez um remix imperdível da faixa.

Independente do revival da dance music, do talento de cada um dos colaboradores do CD, das críticas quase que unanimemente positivas, da profundidade das letras, outro fator que impressiona no álbum de estréia é a capacidade de faixas como “Hercules’ Theme”, “You Belong”, “Athene”, “Blind” e “This Is My Love”, entre outras, serem extremamente versáteis: o disco em sua maioria consegue ser arrasador, independente se é tocado em um set list onde um DJ traz uma pista de dança abaixo, ou em um volume baixo, como música ambiente acompanhado de qualquer outro afazer.

Até quando não manda tão bem, o álbum se destaca, como em “Iris”, faixa mais melosa dentre as dez inclusas no trabalho de estréia, cheia de sintetizadores e um vocal quase que bucólico na voz de Kim Ann.

O grande nocaute do projeto de Butler é a capacidade da banda em ir além da “disco”. Hora soam como space-disco, ora neo-disco e ora house, sempre invocando o melhor dos gêneros com vocais cheios de loops. O groove da banda é completo, bem executado e somado a devastadora voz de Antony Hegarty – ele mesmo, o Antony do Antony and the Johnsons – faz do quarteto uma rara exceção à regra, ficando a house music como o novo “huge comeback” musical.

O álbum de estréia foi lançado no dia 10 de março de 2008 (o single “Blind” uma semana antes) e a partir de maio a banda se prepara para sair em turnê por toda a Europa, participando de diversos festivais musicais como o Sónar Festival, que acontece todos os anos em Barcelona, Espanha, onde se apresentarão ao lado de nomes como Yelle, M.I.A., Frankie Knuckles, Goldfrapp e Justice, entre outros.

Não entremos naquela velha discussão se a banda em questão veio para salvar seu gênero. Sabe aquela famosa frase que diz “na dúvida, fique com o original”? Se tratando de H&LA, digo com segurança: desta vez, fique com o hype.

O que realmente importa e torna o trabalho de estréia dos caras, até aqui, como o melhor do ano: é de longe, o álbum mais original e promissor feito por um coletivo norte-americano em muitos anos.

(Para quem estiver a fim de curtir ao vivo um DJ set de Andy Butler, o produtor toca nos dias 18 e 19 de abril no Rio (69) e em SP (Vegas), respectivamente).

She & Him

A investida de atrizes na carreira de cantora pode causar sentimentos diversos. No século XX as lembranças são incríveis: Doris Day, Olivia Newton John, Ann Margaret (atriz-cantora, cantora-atriz), entre outras. Dos anos 2000 para cá as referências são no mínimo controversas: Paris Hilton, Hilary Duff, Lindsay Lohan, Scarlett Johansson e porque não Juliette Lewis que compensa seu talento musical limitado com um verdadeiro freak show em cima do palco.

A investida em uma carreira paralela que não a que consagrou uma “estrela” é vista com muita desconfiança pela crítica. Sorte – e talento – melhor teve Zooey Deschanel (Quase Famosos), que ao lado do músico de country-folk M. Ward começa chamar atenção com a banda She & Him, formada após cantarem uma música - “When I Get to the Border” (que não está na trilha), de Richard & Linda Thompson - no filme The Go-Getter, ainda inédito no Brasil.

Enquanto Deschanel alcançava o estrelato nas telas com o “Guia do Mochileiro das Galáxias” após ótimas atuações em filmes independentes, Ward não ficou para trás e despontou no meio musical ao co-produzir álbuns para Neko Case, Chan Marshall (Cat Power), Conor Oberst (Bright Eyes), Jim James (Morning Jacket), Nels Cline (Wilco) e Jenny Lewis (Rilo Kiley), além de fazer parte do grupo canadense Broken Social Scene.

Com uma sonoridade que remete ao country pop (ou folk-pop, que muito se assemelham ao soft-rock) dos anos 1970 o She & Him lançou recentemente seu primeiro álbum, intitulado “Volume One”. Dentre as 11 faixas, a voz de Zooey Deschanel entoa três covers: “Was Made For You” de Ronnie Spector, “I Should Have Known Better” dos Beatles e “You Really Got a Hold On Me”, que apesar de atribuída a John Lennon é de autoria do The Miracles, banda americana de R&B que fez certo sucesso nos anos 1960.

As oito faixas restantes foram escritas pela “she” que dá nome à banda e é em “Why Do You Let Me Stay Here” que o duo alcançou o sucesso e reconhecimento de fãs e críticas sendo uma das principais atrações do South by Southwest 2008, festival de música (e filmes) que religiosamente acontece todos os anos no mês de março na cidade de Austin, no Texas.

Enquanto Zooey, que quando pequena cantava em um coral, toca piano e banjo, Ward acumula três funções: a de back vocal, guitarrista e produtor do álbum. A voz de Deschanel é daquelas arrebatadoramente tristes que somada às letras românticas composta pela (ex?) atriz, muito se assemelham à fase Isobel Campbell do Belle & Sebastian.

Diferente da carreira como atriz, onde suas atuações eram muito destacadas, Deschanel aqui não tenta ser uma celebridade, muito menos chamar atenção por qualquer outra coisa que não seja sua doce voz, o que é inteligente, pois como uma menina apaixonada com seu melhor vestido, cantando diante de seu grande amor, ela não só encanta como convence.

Roy Lichtenstein

O que exatamente torna Roy tão diferente, tão atraente?

Vida e obra do pintor norte-americano que valorizou os clichês das histórias em quadrinho como forma de arte

* Artigo escrito em colaboração com a jornalista Paula Manzo

A importância de Max Horkheimer e Theodor Adorno, famosos filósofos e sociólogos alemães, é de extrema relevância para o Pop Art. Juntos, nos anos 20, cunharam o termo “indústria cultural”, fundamental para um debate que estava por vir: a oposição entre a alta cultura e a baixa cultura. Ambos acreditam que o consumo em excesso era uma forte característica do século XX e consequentemente da “sociedade de massa”, e que ao nomear a cultura, já se estabelecia um rebaixamento de nível.

1960 adentro. A cena artística exige cada vez mais a incorporação de histórias em quadrinhos, da publicidade, das imagens televisivas e do cinema na cultura de massa, cultura pop. Ganha vida a Pop Art, criada na Inglaterra e previamente intitulado de Independent Group (ou Grupo Independente, em tradução livre). A obra “O que exatamente torna os lares de hoje tão diferentes, tão atraentes?” é a primeira do movimento a ganhar notoriedade. A obra é assinada por Richard Hamilton, pintor britânico, que se junta a Eduardo Luigi Paolozzi, Richard Smith e Peter Blake entre os principais expoentes britânicos do movimento.

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Os artistas se beneficiam inicialmente das mudanças tecnológicas que acontecem ao redor do mundo. O leque de possibilidades e formas de trabalho no Pop-art é infinitamente maior quando comparado a outros movimentos antiquados.

O trilho que colocou os Estados Unidos na linha do trem da Pop-Art foi o deslumbramento que a Inglaterra possuía ao olhar para o país americano. Era pós-guerra na terra da rainha e os ingleses vislumbravam prosperidade econômica baseada no “american way of life”. Com isto, dois nomes surgem com força como percussores do movimento na América: Andy Warhol e Roy Lichtenstein.

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Responsável por criar diversos mitos e imagens marcantes, Warhol contribuiu com a “glamouralização” de ícones da cultura norte-americana como Marilyn Monroe, Elvis Presley, Liz Taylor e Marlon Brando. Também são de sua autoria embalagens eternizadas e para sempre guardadas em nossa lembrança como referências principais do pop arte, entre elas, os rótulos das garrafas de Coca-cola e os rótulos das latas de sopa Campbell.

Já o também nova-iorquino Lichtenstein contribui para a Pop Art valorizando os clichês das histórias em quadrinhos em forma de arte, inserido dentro de um movimento que buscava criticar a cultura de massa, tornando-a objeto da arte. O consumo em excesso gerava a desvalorização de conteúdo e conseqüente “vazio”, em estruturas que não comportavam qualquer mensagem, além do próprio consumismo desenfreado. Talvez seja esta a maior contribuição deste período: a tentativa de desmistificar o valor do produto, a necessidade de sua existência e seu significado enquanto valor de consumo na cultura pop.

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Seu interesse pelas histórias em quadrinhos começa com uma pintura do ícone Mickey Mouse, - personagem criado por Walter Disney -, realizado em 1960 para o agrado dos filhos. Seus quadros feitos a óleo e tinta acrílica, em tons fortes, brilhantes, planos, delineados por um traço negro, reproduziam os procedimentos gráficos com fidelidade, ampliando as características dos cartoons.

Técnicas de pontilhismo simulavam pontos reticulados das pequenas histórias, sempre de grande impacto visual, resultando na linguagem uma combinação de arte comercial e abstração. Quadros que reproduzem uma reflexão sobre linguagem e formas artísticas, desvinculados do contexto de uma história, viram símbolos ambíguos do mundo moderno, industrializado.

Mas afinal, tem sentido a arte contemporânea?

Assim como qualquer outra manifestação artística, dependente dos olhos de quem a vê, interpreta e utiliza para si como conceito, não se pode tentar dar sentido a qualquer forma de expressão, mas pode-se, ainda assim, identificar suas origens e objetivos, enquanto existentes, como descrito nas letras anteriores deste.

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Deste Duchamp, artista que criava pinturas de inspiração impressionista, expressionista e cubista, criador do “readymade” – transporte de elemento da vida cotidiano, a princípio não reconhecido como artístico, para o campo das artes – a expressão passa a incorporar materiais de uso comum às suas esculturas, não as trabalhando artisticamente, mas considerando prontas a serem exibidas como obra de arte.

A simples mudança de um vaso sanitário de posição causa uma interrogação acerca de suas possibilidades enquanto arte e questionamento. O Pop Art revê estes conceitos, mesmo não ligados inerentemente, pois Duchamp explora, ao abandonar a Europa para viver em Nova York, questões da utilização e desconfiança sobre os objetos a serem vistos sobre outro ângulo, também tomando como partida o sentido de quem vê e toma para si as dúvidas artísticas: “Eu mesmo poderia fazer aquilo”, é um pensamento comum.

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Mas entre o fazer e o que há necessidade de ser mostrado, passam interrogações tanto nos movimentos anteriores, como no Pop Art de Lichtenstein. Algumas décadas depois, a obra do pintor não só continua relevante, mas serve como referência para outros movimentos e artistas – não necessariamente ligados ao Pop Art. Entre os anos de 1997 e 1998, a banda irlandesa U2 fez um tour mundial para promover, na época, seu último trabalho: o álbum “Pop”. O nome do tour em questão era “PopMart”.

The Ting Tings

A imprensa britânica pode ser dividida em duas: a imprensa britânica e imprensa britânica que escreve sobre música. Sobre a primeira, apesar de um pouco sensacionalista, faz o bê-á-bá do jornalismo como manda o figurino. Já a segunda, é digna de um aprofundamento.

Adjetivos controversos como sensacionalista e “pró-hype” parecem ser requisitos básicos para escrever sobre música na terra da rainha. Todas as semanas os jornalistas musicais elegem uma nova banda, um novo cantor ou uma nova cantora a “salvador da pátria”: aquele ou aquela que veio para nos libertar do marasmo, do limbo, do buraco negro em que se meteu o rock’n’roll. Citando o Titãs, resume-se: o que se busca todos os dias é “a melhor banda de todos os tempos da última semana”.

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A nova coqueluche da cena pop inglesa não tem sequer um álbum lançado. Mas quem precisa de um quando meninas de 15 anos surgem para o mundo jogando meia dúzia de canções no MySpace? A banda The Ting Tings certamente não. Com apenas quatro canções o duo formado por Jules De Martino e Katie White apareceu para o mundo, para as pistas e para a mídia em 2006 após encerrar suas atividades na finada Dear Eskiimo - banda que fez relativo sucesso no underground inglês por alguns anos, mas nunca conseguiu por a cabeça fora d’água – e criar o TTT.

Estamos falando de um duo que só toca guitarra e bateria, o sobrenome da front woman é White, mas o Ting Tings não é o novo White Stripes. Nem soa como. O desempenho de Katie White no palco é um misto entre a loucura de Betty Ditto e voracidade da natureza enfurecida com New Orleans. Se as letras são consideradas simplórias, melosas, a sonoridade é literalmente um caso de “leve três e pague dois”: diferente de Jack e Meg, o Ting Tings não faz um rock cru e tem o auxílio de software de mixagem com diversos loops e sintetizadores.

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Com a fama repentina veio o convite para participar do Glastonbury Festivals 2007, hoje o maior e mais importante festival de rock do mundo que acontece todos os anos – geralmente no mês de junho. E foi no palco “Introducing Stage” que a banda se consagrou, tornando popular seu segundo single: “Great DJ”, depois de ter um desempenho apenas razoável com a primeira música de trabalho: “That’s Not My Name”.

Passados alguns meses o Ting Tings possui diversos shows agendados por toda a Europa, um álbum (“We Started Nothing”) prontinho para sair do forno em maio, críticas positivas, críticos entusiastas em boa parte do mundo e memorável desempenho no SXSW Music Festival.

O single “Great DJ” já recebeu um remix de peso assinado pelo gênio mundial dos remixes, Calvin Harris, e Huw Stephens , DJ da Radio One, mais famosa rádio de rock do mundo, já profetizou: “o Ting Tings será a banda principal nos maiores festivais dos próximos anos.”

À conferir.

Será que alguém aí ainda lembra e precisa de Franz Ferdinand?

Guillemots e os trens para o Brazil

It’s 1 o’clock on a Friday morning
I’m trying to keep my back from wall
(…)
And to those of you who moan your lives through one day to the next
Well, let them take you next
Can’t you live and be thankful you’re here?
See it could be you tomorrow, next year

Londres, 22 de julho de 2005

Hoje é sexta-feira. Um rapaz de 27 anos, provido de aparência semita, caminha em passos largos rumo a estação de metrô de Stockwell. Nascido em Gonzaga, minúsculo município do estado de Minas Gerais, o imigrante brasileiro rumou à terra gringa apenas três anos antes do dia de sua morte: 22 de julho de 2005.

No país de um outro Charles, não deram tempo para Jean Charles de Menezes atender a um chamado e consertar um alarme de incêndio quebrado em Kilburn, motivo de tamanha pressa naquela fatídica manhã rumo ao trem subterrâneo.

 

 

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Após oito longas balas de ponta oca, também atendendo pelo nome de dundum, daquelas que estilhaçam dentro do corpo, armamento proibido desde a Convenção de Haia em 1899, Jean Charles, primo de Alex Pereira, deixa de ser mais um desconhecido talvez ultrapassando a popularidade de seu xará, filho de Elizabeth II.

 

 

Londres, 2004. Algum dos 30 dias de novembro

 

Em algum lugar, ano antes, na mesma cidade, Fyfe Dangerfield finalmente acerta: após quase meia dúzia de bandas formadas, projetos experimentais, salta, enfim, rumo ao estrelato ao lado da moça Aristazabal Hawkes e dos rapazes Greig Stewart e MC Lord Magrão – brasileiro, que apesar do MC é guitarrista. É formada a banda Guillemots.

 

Londres, 10 de julho de 2006

 

 

Quase um ano se passou e o “santuário” em frente à estação de metrô de Stockwell continua sendo diariamente freqüentado por aqueles que no baú de suas lembranças lembram da história de um brasileiro assassinado pela Scotland Yard. O Guillemots saiu do anonimato para o sucesso sendo aclamado e reconhecido por fãs e críticos musicais.

 

 

 

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Quem também não conseguiu esquecer a tragédia que abalou as relações entre Brasil e Inglaterra foi Dangerfield. O álbum “Through the Windowpane”, primeiro da banda, é lançado e logo chega ao topo das paradas musicais. Das 11 faixas do disco, uma delas, a terceira, chama atenção.

 

 

“Trains to Brazil”, escrita em 2002 pelo vocalista, pode ser considerada um comentário social ao abordar as precárias condições de vida no mundo contemporâneo e a suspeita e desconfiança que espreita a sociedade após o 11 de setembro de 2001. Dangerfield crítica aqueles que passam a vida reclamando, pois acredita que devemos agradecer por apenas estar vivos, e quase como um decreto, encerra: “Você pode ser o próximo / Amanhã / Ano que vem.”

 

 

 

 

Mas não apenas pelo engajamento político que a música chama a atenção. Mais importante, é que no processo de gravação do álbum, a canção possuía outro nome e seu título foi alterado as pressas para “Trains to Brazil” em homenagem a Jean Charles Menezes.

 

 

“Through the Windowpane” também possui outras duas referências ao Brasil. A sétima faixa, “If The World Ends”, cujo o refrão é “If the world ends / I hope you’re here with me / I think we could laugh just enough / To not die in pain / If the world ends / It won’t finish you / You’re not the type they can capture / You flit like a fly catcher / They can’t pin you down / Can’t pin you down” termina com a voz de uma criança, provavelmente brasileira com a seguinte mensagem em português: “Mas o mundo não acabou. Ainda. De qualquer forma”. A segunda referência é o nome da última faixa do álbum: “São Paulo”.

 

 

Brasil, 17 de março de 2008

 

 

O Guillemots se prepara para lançar seu segundo álbum, intitulado “Red”, no dia 24 de março. No último dia 17 do mesmo mês, o single “Get Over It” foi disponibilizado no MySpace da banda e logo vazou para toda a Internet.

 

 

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Além do single, fazem parte de “Red” as seguintes canções: “Kriss Kross”, “Big Dog”, “Falling Out Of Reach”, “Clarion”, “Last Kiss”, “Cockateels”, “Words”, “Standing On The Last Star”, “Don’t Look Down” e “Take Me Home”.

 

O quarteto parte em maio para sua nova turnê e assim como em sua primeira excursão pelo mundo, nenhuma data no Brasil ou na América Latina parece estar inclusa.

Carl Solomon também foi um beat

“… who threw potato salad at CCNY lecturers on Dadaism and subsequently presented themselves on the granite steps of the madhouse with shaven heads and harlequin speech of suicide, demanding instantaneous lobotomy …” 

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Carl Solomon

Esta talvez seja a passagem mais famosa do profético “Uivo”, emaranhado de poemas de Allen Ginsberg, lançado no Brasil pela editora L&PM Pocket. Tal passagem, não só é homenagem, mas relato de um acontecimento real envolvendo Carl Solomon.

Sim, Solomon realmente arremessou uma salada de batatas durante uma aula sobre Dadaísmo na Universidade City College of New York. Posteriormente ele afirmou que junto de seus amigos, fazia um manifesto “em prol da arte”, mas alguns anos depois, quando Solomon se internou no New York State Psychiatric Institute exigindo uma lobotomia que acabasse com sua angústia psicótica, não estava sendo artístico. Ele queria mesmo ser “suicidado”. 

Nascido em 30 de março de 1928, Carl Solomon é mais famoso por Ginsberg ter lhe dedicado “Uivo”, do que por sua própria obra. Um verdadeiro beat renegado, ou parcialmente descoberto. Alguns nem ao menos o consideram como um escritor. Ele e Ginsberg se conheceram em uma sala de espera de um hospital psiquiátrico onde Ginbserg visitava sua mãe. Por seus problemas mentais, Solomon era recorrente por lá. Possuía uma inteligência hiperativa (sic) e reza a lenda que mesmo sendo dois anos mais novo, não só vivia dando conselhos, mas instruindo Ginbserg sobre diversos assuntos literários (estamos falando de Allen Gibserg recebendo conselhos) e que o autor de “Uivo” tomava nota de tudo o que Solomon dizia.

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Alguns dias antes do Natal de 1949, Solomon é liberado do hospital e aluga um apartamento na West Seventeen Street. Ginsberg sugere um open-house para comemorar a metade do século e é em tal ocasião que se juntam pela primeira vez o autor de “Uivo”, Jack Kerouac, Neal Cassady, além, é claro, de Solomon, entre outros. Segundo o prefácio do livro “De Repente, Acidentes” foi nesta festa que Kerouac se encantou por Cassady (para quem não sabe, Neal Cassady foi o companheiro de Kerouac atravessando os EUA pela Rota 66 e posteriormente serviria de inspiração para a criação do personagem Dean Mortiarty em “On the Road”).  

A aproximação entre Ginsberg e Solomon torna-se ainda maior quando o primeiro, por volta de 1952, vai até A. A. Wyn, tio de Solomon, com o seguinte pedido: ajudar a publicar obras de dois de seus amigos. Wyn havia fundado a Ace Books, editora nova-iorquina especializada na publicação de obras de fantasia e ficção-científica e era editor da linha encadernada Wyn Books. Quem eram os amigos de Ginsberg? William S. Burroughs e Jack Kerouac.

Como já havia acontecido anteriormente na mão de outras editoras, Kerouac e os pergaminhos de “On the Road” foram recusados, mas “Junky”, de Burroughs, que posteriormente seria referido como referência maior da geração beat justamente ao lado de “On the Road” foi publicado dentro de uma coleção de gosto duvidoso da Ace chamada “Two Books In One” (consumir “dois pelo preço de um” era muito comum nos anos 1950, assim como mais tarde fez o cinema com as seções Grindhouse). “Junkie” seria encadernado e colado a um livro de um agente de narcóticos, com censuras anotadas quanto ao conteúdo. 

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Allen Ginsberg

No ano de 1956, mesmo ano de publicação de “Uivo”, Solomon sofre nova recaída e volta ao hospital. Apesar de nunca ter exercido a profissão de escritor, é lá que seus escritos e memórias começam a tomar forma e viriam a ser reunidos sem ordem cronológica e editados sob a forma de “De Repente, Acidentes” (L&PM Pocket) e “More Mishaps”, por Mary Beach, em 1966 e 1968, respectivamente.

 

Sua outra obra, um ensaio, considerado por muitos como sua obra-prima, “Emergency Messages” (”Relato do Asilo: reflexões de um paciente após o choque” que originalmente fez parte da antologia “The Beat Generation and the Angry Young Man”, de Gene Feldman e Max Gartenberg) foi publicada nos EUA em 1989. 

 

Carl Solomon era indignado com a psiquiatria repressiva. Carl Solomon era apaixonado por Baudelaire e Artaud. Carl Solomon caçoava do burburinho da sociedade em cima dos beats, fosse ele positivo ou negativo. Carl Solomon foi muito mais importante para Allen Ginsberg, “Uivo” e para a geração beat do que Neal Cassady foi para Jack Kerouac e “On the Road”. Portanto, “De Repente, Acidentes”, com o lamentável e solitário status de única obra do autor traduzida no Brasil, torna-se ainda mais indispensável.


Culpado

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Pedro Beck é jornalista, redator, roteirista e flamenguista. Escreve por aí sobre música, séries de tv, literatura e cinema marginal.


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