Archive for March, 2008

Roy Lichtenstein

O que exatamente torna Roy tão diferente, tão atraente?

Vida e obra do pintor norte-americano que valorizou os clichês das histórias em quadrinho como forma de arte

* Artigo escrito em colaboração com a jornalista Paula Manzo

A importância de Max Horkheimer e Theodor Adorno, famosos filósofos e sociólogos alemães, é de extrema relevância para o Pop Art. Juntos, nos anos 20, cunharam o termo “indústria cultural”, fundamental para um debate que estava por vir: a oposição entre a alta cultura e a baixa cultura. Ambos acreditam que o consumo em excesso era uma forte característica do século XX e consequentemente da “sociedade de massa”, e que ao nomear a cultura, já se estabelecia um rebaixamento de nível.

1960 adentro. A cena artística exige cada vez mais a incorporação de histórias em quadrinhos, da publicidade, das imagens televisivas e do cinema na cultura de massa, cultura pop. Ganha vida a Pop Art, criada na Inglaterra e previamente intitulado de Independent Group (ou Grupo Independente, em tradução livre). A obra “O que exatamente torna os lares de hoje tão diferentes, tão atraentes?” é a primeira do movimento a ganhar notoriedade. A obra é assinada por Richard Hamilton, pintor britânico, que se junta a Eduardo Luigi Paolozzi, Richard Smith e Peter Blake entre os principais expoentes britânicos do movimento.

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Os artistas se beneficiam inicialmente das mudanças tecnológicas que acontecem ao redor do mundo. O leque de possibilidades e formas de trabalho no Pop-art é infinitamente maior quando comparado a outros movimentos antiquados.

O trilho que colocou os Estados Unidos na linha do trem da Pop-Art foi o deslumbramento que a Inglaterra possuía ao olhar para o país americano. Era pós-guerra na terra da rainha e os ingleses vislumbravam prosperidade econômica baseada no “american way of life”. Com isto, dois nomes surgem com força como percussores do movimento na América: Andy Warhol e Roy Lichtenstein.

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Responsável por criar diversos mitos e imagens marcantes, Warhol contribuiu com a “glamouralização” de ícones da cultura norte-americana como Marilyn Monroe, Elvis Presley, Liz Taylor e Marlon Brando. Também são de sua autoria embalagens eternizadas e para sempre guardadas em nossa lembrança como referências principais do pop arte, entre elas, os rótulos das garrafas de Coca-cola e os rótulos das latas de sopa Campbell.

Já o também nova-iorquino Lichtenstein contribui para a Pop Art valorizando os clichês das histórias em quadrinhos em forma de arte, inserido dentro de um movimento que buscava criticar a cultura de massa, tornando-a objeto da arte. O consumo em excesso gerava a desvalorização de conteúdo e conseqüente “vazio”, em estruturas que não comportavam qualquer mensagem, além do próprio consumismo desenfreado. Talvez seja esta a maior contribuição deste período: a tentativa de desmistificar o valor do produto, a necessidade de sua existência e seu significado enquanto valor de consumo na cultura pop.

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Seu interesse pelas histórias em quadrinhos começa com uma pintura do ícone Mickey Mouse, – personagem criado por Walter Disney -, realizado em 1960 para o agrado dos filhos. Seus quadros feitos a óleo e tinta acrílica, em tons fortes, brilhantes, planos, delineados por um traço negro, reproduziam os procedimentos gráficos com fidelidade, ampliando as características dos cartoons.

Técnicas de pontilhismo simulavam pontos reticulados das pequenas histórias, sempre de grande impacto visual, resultando na linguagem uma combinação de arte comercial e abstração. Quadros que reproduzem uma reflexão sobre linguagem e formas artísticas, desvinculados do contexto de uma história, viram símbolos ambíguos do mundo moderno, industrializado.

Mas afinal, tem sentido a arte contemporânea?

Assim como qualquer outra manifestação artística, dependente dos olhos de quem a vê, interpreta e utiliza para si como conceito, não se pode tentar dar sentido a qualquer forma de expressão, mas pode-se, ainda assim, identificar suas origens e objetivos, enquanto existentes, como descrito nas letras anteriores deste.

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Deste Duchamp, artista que criava pinturas de inspiração impressionista, expressionista e cubista, criador do “readymade” – transporte de elemento da vida cotidiano, a princípio não reconhecido como artístico, para o campo das artes – a expressão passa a incorporar materiais de uso comum às suas esculturas, não as trabalhando artisticamente, mas considerando prontas a serem exibidas como obra de arte.

A simples mudança de um vaso sanitário de posição causa uma interrogação acerca de suas possibilidades enquanto arte e questionamento. O Pop Art revê estes conceitos, mesmo não ligados inerentemente, pois Duchamp explora, ao abandonar a Europa para viver em Nova York, questões da utilização e desconfiança sobre os objetos a serem vistos sobre outro ângulo, também tomando como partida o sentido de quem vê e toma para si as dúvidas artísticas: “Eu mesmo poderia fazer aquilo”, é um pensamento comum.

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Mas entre o fazer e o que há necessidade de ser mostrado, passam interrogações tanto nos movimentos anteriores, como no Pop Art de Lichtenstein. Algumas décadas depois, a obra do pintor não só continua relevante, mas serve como referência para outros movimentos e artistas – não necessariamente ligados ao Pop Art. Entre os anos de 1997 e 1998, a banda irlandesa U2 fez um tour mundial para promover, na época, seu último trabalho: o álbum “Pop”. O nome do tour em questão era “PopMart”.

The Ting Tings

A imprensa britânica pode ser dividida em duas: a imprensa britânica e imprensa britânica que escreve sobre música. Sobre a primeira, apesar de um pouco sensacionalista, faz o bê-á-bá do jornalismo como manda o figurino. Já a segunda, é digna de um aprofundamento.

Adjetivos controversos como sensacionalista e “pró-hype” parecem ser requisitos básicos para escrever sobre música na terra da rainha. Todas as semanas os jornalistas musicais elegem uma nova banda, um novo cantor ou uma nova cantora a “salvador da pátria”: aquele ou aquela que veio para nos libertar do marasmo, do limbo, do buraco negro em que se meteu o rock’n’roll. Citando o Titãs, resume-se: o que se busca todos os dias é “a melhor banda de todos os tempos da última semana”.

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A nova coqueluche da cena pop inglesa não tem sequer um álbum lançado. Mas quem precisa de um quando meninas de 15 anos surgem para o mundo jogando meia dúzia de canções no MySpace? A banda The Ting Tings certamente não. Com apenas quatro canções o duo formado por Jules De Martino e Katie White apareceu para o mundo, para as pistas e para a mídia em 2006 após encerrar suas atividades na finada Dear Eskiimo – banda que fez relativo sucesso no underground inglês por alguns anos, mas nunca conseguiu por a cabeça fora d’água – e criar o TTT.

Estamos falando de um duo que só toca guitarra e bateria, o sobrenome da front woman é White, mas o Ting Tings não é o novo White Stripes. Nem soa como. O desempenho de Katie White no palco é um misto entre a loucura de Betty Ditto e voracidade da natureza enfurecida com New Orleans. Se as letras são consideradas simplórias, melosas, a sonoridade é literalmente um caso de “leve três e pague dois”: diferente de Jack e Meg, o Ting Tings não faz um rock cru e tem o auxílio de software de mixagem com diversos loops e sintetizadores.

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Com a fama repentina veio o convite para participar do Glastonbury Festivals 2007, hoje o maior e mais importante festival de rock do mundo que acontece todos os anos – geralmente no mês de junho. E foi no palco “Introducing Stage” que a banda se consagrou, tornando popular seu segundo single: “Great DJ”, depois de ter um desempenho apenas razoável com a primeira música de trabalho: “That’s Not My Name”.

Passados alguns meses o Ting Tings possui diversos shows agendados por toda a Europa, um álbum (“We Started Nothing”) prontinho para sair do forno em maio, críticas positivas, críticos entusiastas em boa parte do mundo e memorável desempenho no SXSW Music Festival.

O single “Great DJ” já recebeu um remix de peso assinado pelo gênio mundial dos remixes, Calvin Harris, e Huw Stephens , DJ da Radio One, mais famosa rádio de rock do mundo, já profetizou: “o Ting Tings será a banda principal nos maiores festivais dos próximos anos.”

À conferir.

Será que alguém aí ainda lembra e precisa de Franz Ferdinand?

Guillemots e os trens para o Brazil

It’s 1 o’clock on a Friday morning
I’m trying to keep my back from wall
(…)
And to those of you who moan your lives through one day to the next
Well, let them take you next
Can’t you live and be thankful you’re here?
See it could be you tomorrow, next year

Londres, 22 de julho de 2005

Hoje é sexta-feira. Um rapaz de 27 anos, provido de aparência semita, caminha em passos largos rumo a estação de metrô de Stockwell. Nascido em Gonzaga, minúsculo município do estado de Minas Gerais, o imigrante brasileiro rumou à terra gringa apenas três anos antes do dia de sua morte: 22 de julho de 2005.

No país de um outro Charles, não deram tempo para Jean Charles de Menezes atender a um chamado e consertar um alarme de incêndio quebrado em Kilburn, motivo de tamanha pressa naquela fatídica manhã rumo ao trem subterrâneo.

 

 

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Após oito longas balas de ponta oca, também atendendo pelo nome de dundum, daquelas que estilhaçam dentro do corpo, armamento proibido desde a Convenção de Haia em 1899, Jean Charles, primo de Alex Pereira, deixa de ser mais um desconhecido talvez ultrapassando a popularidade de seu xará, filho de Elizabeth II.

 

 

Londres, 2004. Algum dos 30 dias de novembro

 

Em algum lugar, ano antes, na mesma cidade, Fyfe Dangerfield finalmente acerta: após quase meia dúzia de bandas formadas, projetos experimentais, salta, enfim, rumo ao estrelato ao lado da moça Aristazabal Hawkes e dos rapazes Greig Stewart e MC Lord Magrão – brasileiro, que apesar do MC é guitarrista. É formada a banda Guillemots.

 

Londres, 10 de julho de 2006

 

 

Quase um ano se passou e o “santuário” em frente à estação de metrô de Stockwell continua sendo diariamente freqüentado por aqueles que no baú de suas lembranças lembram da história de um brasileiro assassinado pela Scotland Yard. O Guillemots saiu do anonimato para o sucesso sendo aclamado e reconhecido por fãs e críticos musicais.

 

 

 

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Quem também não conseguiu esquecer a tragédia que abalou as relações entre Brasil e Inglaterra foi Dangerfield. O álbum “Through the Windowpane”, primeiro da banda, é lançado e logo chega ao topo das paradas musicais. Das 11 faixas do disco, uma delas, a terceira, chama atenção.

 

 

“Trains to Brazil”, escrita em 2002 pelo vocalista, pode ser considerada um comentário social ao abordar as precárias condições de vida no mundo contemporâneo e a suspeita e desconfiança que espreita a sociedade após o 11 de setembro de 2001. Dangerfield crítica aqueles que passam a vida reclamando, pois acredita que devemos agradecer por apenas estar vivos, e quase como um decreto, encerra: “Você pode ser o próximo / Amanhã / Ano que vem.”

 

 

 

 

Mas não apenas pelo engajamento político que a música chama a atenção. Mais importante, é que no processo de gravação do álbum, a canção possuía outro nome e seu título foi alterado as pressas para “Trains to Brazil” em homenagem a Jean Charles Menezes.

 

 

“Through the Windowpane” também possui outras duas referências ao Brasil. A sétima faixa, “If The World Ends”, cujo o refrão é “If the world ends / I hope you’re here with me / I think we could laugh just enough / To not die in pain / If the world ends / It won’t finish you / You’re not the type they can capture / You flit like a fly catcher / They can’t pin you down / Can’t pin you down” termina com a voz de uma criança, provavelmente brasileira com a seguinte mensagem em português: “Mas o mundo não acabou. Ainda. De qualquer forma”. A segunda referência é o nome da última faixa do álbum: “São Paulo”.

 

 

Brasil, 17 de março de 2008

 

 

O Guillemots se prepara para lançar seu segundo álbum, intitulado “Red”, no dia 24 de março. No último dia 17 do mesmo mês, o single “Get Over It” foi disponibilizado no MySpace da banda e logo vazou para toda a Internet.

 

 

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Além do single, fazem parte de “Red” as seguintes canções: “Kriss Kross”, “Big Dog”, “Falling Out Of Reach”, “Clarion”, “Last Kiss”, “Cockateels”, “Words”, “Standing On The Last Star”, “Don’t Look Down” e “Take Me Home”.

 

O quarteto parte em maio para sua nova turnê e assim como em sua primeira excursão pelo mundo, nenhuma data no Brasil ou na América Latina parece estar inclusa.

Carl Solomon também foi um beat

“… who threw potato salad at CCNY lecturers on Dadaism and subsequently presented themselves on the granite steps of the madhouse with shaven heads and harlequin speech of suicide, demanding instantaneous lobotomy …” 

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Carl Solomon

Esta talvez seja a passagem mais famosa do profético “Uivo”, emaranhado de poemas de Allen Ginsberg, lançado no Brasil pela editora L&PM Pocket. Tal passagem, não só é homenagem, mas relato de um acontecimento real envolvendo Carl Solomon.

Sim, Solomon realmente arremessou uma salada de batatas durante uma aula sobre Dadaísmo na Universidade City College of New York. Posteriormente ele afirmou que junto de seus amigos, fazia um manifesto “em prol da arte”, mas alguns anos depois, quando Solomon se internou no New York State Psychiatric Institute exigindo uma lobotomia que acabasse com sua angústia psicótica, não estava sendo artístico. Ele queria mesmo ser “suicidado”. 

Nascido em 30 de março de 1928, Carl Solomon é mais famoso por Ginsberg ter lhe dedicado “Uivo”, do que por sua própria obra. Um verdadeiro beat renegado, ou parcialmente descoberto. Alguns nem ao menos o consideram como um escritor. Ele e Ginsberg se conheceram em uma sala de espera de um hospital psiquiátrico onde Ginbserg visitava sua mãe. Por seus problemas mentais, Solomon era recorrente por lá. Possuía uma inteligência hiperativa (sic) e reza a lenda que mesmo sendo dois anos mais novo, não só vivia dando conselhos, mas instruindo Ginbserg sobre diversos assuntos literários (estamos falando de Allen Gibserg recebendo conselhos) e que o autor de “Uivo” tomava nota de tudo o que Solomon dizia.

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Alguns dias antes do Natal de 1949, Solomon é liberado do hospital e aluga um apartamento na West Seventeen Street. Ginsberg sugere um open-house para comemorar a metade do século e é em tal ocasião que se juntam pela primeira vez o autor de “Uivo”, Jack Kerouac, Neal Cassady, além, é claro, de Solomon, entre outros. Segundo o prefácio do livro “De Repente, Acidentes” foi nesta festa que Kerouac se encantou por Cassady (para quem não sabe, Neal Cassady foi o companheiro de Kerouac atravessando os EUA pela Rota 66 e posteriormente serviria de inspiração para a criação do personagem Dean Mortiarty em “On the Road”).  

A aproximação entre Ginsberg e Solomon torna-se ainda maior quando o primeiro, por volta de 1952, vai até A. A. Wyn, tio de Solomon, com o seguinte pedido: ajudar a publicar obras de dois de seus amigos. Wyn havia fundado a Ace Books, editora nova-iorquina especializada na publicação de obras de fantasia e ficção-científica e era editor da linha encadernada Wyn Books. Quem eram os amigos de Ginsberg? William S. Burroughs e Jack Kerouac.

Como já havia acontecido anteriormente na mão de outras editoras, Kerouac e os pergaminhos de “On the Road” foram recusados, mas “Junky”, de Burroughs, que posteriormente seria referido como referência maior da geração beat justamente ao lado de “On the Road” foi publicado dentro de uma coleção de gosto duvidoso da Ace chamada “Two Books In One” (consumir “dois pelo preço de um” era muito comum nos anos 1950, assim como mais tarde fez o cinema com as seções Grindhouse). “Junkie” seria encadernado e colado a um livro de um agente de narcóticos, com censuras anotadas quanto ao conteúdo. 

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Allen Ginsberg

No ano de 1956, mesmo ano de publicação de “Uivo”, Solomon sofre nova recaída e volta ao hospital. Apesar de nunca ter exercido a profissão de escritor, é lá que seus escritos e memórias começam a tomar forma e viriam a ser reunidos sem ordem cronológica e editados sob a forma de “De Repente, Acidentes” (L&PM Pocket) e “More Mishaps”, por Mary Beach, em 1966 e 1968, respectivamente.

 

Sua outra obra, um ensaio, considerado por muitos como sua obra-prima, “Emergency Messages” (“Relato do Asilo: reflexões de um paciente após o choque” que originalmente fez parte da antologia “The Beat Generation and the Angry Young Man”, de Gene Feldman e Max Gartenberg) foi publicada nos EUA em 1989. 

 

Carl Solomon era indignado com a psiquiatria repressiva. Carl Solomon era apaixonado por Baudelaire e Artaud. Carl Solomon caçoava do burburinho da sociedade em cima dos beats, fosse ele positivo ou negativo. Carl Solomon foi muito mais importante para Allen Ginsberg, “Uivo” e para a geração beat do que Neal Cassady foi para Jack Kerouac e “On the Road”. Portanto, “De Repente, Acidentes”, com o lamentável e solitário status de única obra do autor traduzida no Brasil, torna-se ainda mais indispensável.


Editor


Pedro Beck é jornalista e crítico de TV.


Contato:
pedrobeck@gmail.com

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