Guillemots e os trens para o Brazil

It’s 1 o’clock on a Friday morning
I’m trying to keep my back from wall
(…)
And to those of you who moan your lives through one day to the next
Well, let them take you next
Can’t you live and be thankful you’re here?
See it could be you tomorrow, next year

Londres, 22 de julho de 2005

Hoje é sexta-feira. Um rapaz de 27 anos, provido de aparência semita, caminha em passos largos rumo a estação de metrô de Stockwell. Nascido em Gonzaga, minúsculo município do estado de Minas Gerais, o imigrante brasileiro rumou à terra gringa apenas três anos antes do dia de sua morte: 22 de julho de 2005.

No país de um outro Charles, não deram tempo para Jean Charles de Menezes atender a um chamado e consertar um alarme de incêndio quebrado em Kilburn, motivo de tamanha pressa naquela fatídica manhã rumo ao trem subterrâneo.

 

 

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Após oito longas balas de ponta oca, também atendendo pelo nome de dundum, daquelas que estilhaçam dentro do corpo, armamento proibido desde a Convenção de Haia em 1899, Jean Charles, primo de Alex Pereira, deixa de ser mais um desconhecido talvez ultrapassando a popularidade de seu xará, filho de Elizabeth II.

 

 

Londres, 2004. Algum dos 30 dias de novembro

 

Em algum lugar, ano antes, na mesma cidade, Fyfe Dangerfield finalmente acerta: após quase meia dúzia de bandas formadas, projetos experimentais, salta, enfim, rumo ao estrelato ao lado da moça Aristazabal Hawkes e dos rapazes Greig Stewart e MC Lord Magrão – brasileiro, que apesar do MC é guitarrista. É formada a banda Guillemots.

 

Londres, 10 de julho de 2006

 

 

Quase um ano se passou e o “santuário” em frente à estação de metrô de Stockwell continua sendo diariamente freqüentado por aqueles que no baú de suas lembranças lembram da história de um brasileiro assassinado pela Scotland Yard. O Guillemots saiu do anonimato para o sucesso sendo aclamado e reconhecido por fãs e críticos musicais.

 

 

 

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Quem também não conseguiu esquecer a tragédia que abalou as relações entre Brasil e Inglaterra foi Dangerfield. O álbum “Through the Windowpane”, primeiro da banda, é lançado e logo chega ao topo das paradas musicais. Das 11 faixas do disco, uma delas, a terceira, chama atenção.

 

 

“Trains to Brazil”, escrita em 2002 pelo vocalista, pode ser considerada um comentário social ao abordar as precárias condições de vida no mundo contemporâneo e a suspeita e desconfiança que espreita a sociedade após o 11 de setembro de 2001. Dangerfield crítica aqueles que passam a vida reclamando, pois acredita que devemos agradecer por apenas estar vivos, e quase como um decreto, encerra: “Você pode ser o próximo / Amanhã / Ano que vem.”

 

 

 

 

Mas não apenas pelo engajamento político que a música chama a atenção. Mais importante, é que no processo de gravação do álbum, a canção possuía outro nome e seu título foi alterado as pressas para “Trains to Brazil” em homenagem a Jean Charles Menezes.

 

 

“Through the Windowpane” também possui outras duas referências ao Brasil. A sétima faixa, “If The World Ends”, cujo o refrão é “If the world ends / I hope you’re here with me / I think we could laugh just enough / To not die in pain / If the world ends / It won’t finish you / You’re not the type they can capture / You flit like a fly catcher / They can’t pin you down / Can’t pin you down” termina com a voz de uma criança, provavelmente brasileira com a seguinte mensagem em português: “Mas o mundo não acabou. Ainda. De qualquer forma”. A segunda referência é o nome da última faixa do álbum: “São Paulo”.

 

 

Brasil, 17 de março de 2008

 

 

O Guillemots se prepara para lançar seu segundo álbum, intitulado “Red”, no dia 24 de março. No último dia 17 do mesmo mês, o single “Get Over It” foi disponibilizado no MySpace da banda e logo vazou para toda a Internet.

 

 

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Além do single, fazem parte de “Red” as seguintes canções: “Kriss Kross”, “Big Dog”, “Falling Out Of Reach”, “Clarion”, “Last Kiss”, “Cockateels”, “Words”, “Standing On The Last Star”, “Don’t Look Down” e “Take Me Home”.

 

O quarteto parte em maio para sua nova turnê e assim como em sua primeira excursão pelo mundo, nenhuma data no Brasil ou na América Latina parece estar inclusa.


3 Responses to “Guillemots e os trens para o Brazil”


  1. 1 toalhanacama March 20, 2008 at 1:33 pm

    Adorei o enfoque do novo blog. Textos sensacionais!
    KISS

  2. 2 Pri. March 25, 2008 at 2:03 am

    Acho muito que deveriam pegar um trem pro Brasil! Aliás, pegar trem às 7 da manhã rumo a Central! =P

    Beijocas, gato.

  3. 3 Mariana Rezende April 10, 2008 at 8:35 pm

    num dá vontade de gritar bem alto?

    AAAAAAAAAAAAH AAAAAAAAAHHHHH


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Pedro Beck é jornalista por formação, publicitário por opção, crítico e colunista de TV, redator, colecionador, roteirista e flamenguista.


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