Archive for April, 2008

Laura Taylor

Antes da entrevista, a maior preocupação de Laura era com as respostas: “Meu português é meio zoado, morei muito tempo fora, você corrige se eu falar algo errado?”.

“Relaxa, não se preocupa”, respondi.

Laura Taylor, apesar de mineira, morou boa parte de sua vida na Nova Zelândia. Após surgir na noite como integrante do coletivo de DJs Killer Shoes, resolveu tentar a sorte na seletiva em que o Bonde do Rolê organizou em parceria com a MTV na busca de uma nova front woman que substituisse Marina Vello. Se deu bem: ao lado de Ana Bernardino, Taylor é a nova vocalista do grupo.

Conversei com Laura poucas horas antes de ela embarcar para Portugal, onde foi ao encontro dos outros integrantes da banda. Em um papo descontraido, rápido, mas divertidíssimo, Laura fala sobre suas expectativas, sonhos, Rodrigo Gorky, Pedro D’Eyrot, Ana Bernardino, Killer Shoes, a distância da família e dos amigos, entre outros assuntos.

Da onde veio a vontade de ser vocalista do Bonde?

LAURA TAYLOR: Eu sou performatica, né, meu bem. Ser só DJ não estava me satisfazendo. Uma cabine é pouco, eu quero palco.

Você se considerava fã da banda antes da seletiva?

LT: Sim, fazia parte do set das Killers [Shoes].

O que achou da Ana ter entrado na parada? Se você se inscreveu no concurso é porque queria ser a frontwoman. Como é ser uma das?

LT: Eu acho lindo, Ebony and Ivory [referência a Paul McCartney]. Os meninos não poderiam ter escolhido melhor. Eu não sei como será, estou morrendo de medo, sonhando muito, muita coisa bizarra. Ontem sonhei que fazia a minha mala.

O sonho que durou a noite inteira e foi uma mala muito bem feita! Eu dobrei tudo, escolhi cada roupa, arrumei a necessaire, passei o que tinha que passar, peguei as roupas do varal, organizei minha pasta de documentos… fiz tudo! Acordei exausta e com nada arrumado. [risos] É muita ansiedade para uma pessoa só!

Você tem mantido contato com o Gorky e o Pedro? Vocês já se conhecem bem?

LT: Estamos construindo uma amizade muito bonita e especial. [risos]

Qual a sua maior referência musical? [Nesta hora, peço para ela falar o primeiro nome que vier em mente, Laura não só responde como indica o vídeo abaixo]

LT: O B-52’s!

Como espera que fique sua vida agora? Está preparada para mil viagens, ficar longe da família e dos amigos?

LT: Mil viagens, sim! Ficar longe da família e amigos, mais ou menos… O cansaço, no way! [de jeito nenhum].

Quando o CSS surgiu eles diziam que criaram a banda para beber de graça nas festas. Com o tempo, se tornou algo sério. É com este pensamento, se divertir, que você encara essa nova etapa da sua vida, ou você almeja isto como um trampolim para, de repente, algo ainda maior? Exagero ou não, é a hora e vez de Laura Taylor, não?

LT: Eu estou aqui para beber de graça nas festas! [risos] Mentira. No dia em que eu ganhei, liguei para meu pai e gritei: “Pai! Ganhei! Vou ficar famosa”, e ele respondeu: “Não meu bem, famosa você vai ser quando casar com a Madonna”. Então isto aqui é um trampolim para casar com a Madonna, to make daddy proud! [para deixar meu pai orgulhoso].

E a Pequeña Laura Taylor? Vai fazer participação no Bonde?

LT: Claro! Onde tem whisky, tem La Pequeña.

O Killer Shoes morreu com a sua saida?

LT: Não, nunca. O Killer Shoes não é só discotecagem, é um estilo de vida!

Quem manda mais? Cash, Dylan ou quem se importa?

LT: Não tem como comparar.

Me da uma exclusiva quando você for o highlight do Coachella e Glastonbury? Junto com as passagens?

LT: Te dou demais, filho!

Por fim, mas não menos importante: Já está preparada para ser odiada pelo povinho recalcado do Brasil?

LT: To demais, filho!

Crédito das fotos: Bárbara Dutra

Hercules & Love Affair

Antes de entrar no assunto H&LA, eis um nome a ser aprofundado: DFA Records.

DFA Records

Fundada em 2001, a DFA Records é hoje, ramificação da EMI em música eletrônica. O selo é braço independente da major e possui contrato de exclusividade na produção e distribuição de seus artistas.

Criada por Tim Goldsworthy (produtor do Cut Copy), James Murphy (do LCD Soundsystem) e Jonathan Galkin, a DFA é casa de diversos nomes do eletrônico como The Rapture, Black Dice, Hot Chip e o próprio LCD Soundsystem, entre outros.

Nas rédeas da produção o selo vai além: para ficar apenas em alguns nomes, produziu e remixou desde 2001, artistas como Le Tigre, NIN e Chemical Brothers, além dos já citados Hot Chip e LCD. No subgênero dance-punk a DFA é sem dúvida propriedade no assunto: seu catálogo de bandas deixa isto evidente, pois a grande maioria bebe da cena underground nova-iorquina do final da década de 1970 (estamos falando do groove de bandas como Talking Heads, Blondie e Liquid Liquid). A grande diferença destas bandas de ontem para as de hoje é a sonoridade mais suja, barulhenta, às vezes até mais pesada.

Hercules & Love Affair

Outra banda que desde 2007 tomou a DFA como lar é o Hercules & Love Affair. Há quem chame de banda de um cara só (Andy Butler, DJ e produtor que dispensa comentários), há quem chame de duo (Butler + Antony Hegarty, que empresta sua voz em cinco faixas). Porém, o H&LA também pode ser considerado um coletivo (formado também por Kim Ann e Nomi) vindo de Nova York com capacidade e energia suficiente para despertar a cidade mais populosa dos EUA do marasmo musical que se enfiou nos últimos anos.

Seu auto-intitulado álbum é como um soco no estômago: curto e direto. O primeiro single, “Blind”, é sucesso no mundo todo desde 2007 e já deixou Frankie Knuckles de queixo caído – o DJ norte-americano, um dos grandes precursores da house-music, fez um remix imperdível da faixa.

Independente do revival da dance music, do talento de cada um dos colaboradores do CD, das críticas quase que unanimemente positivas, da profundidade das letras, outro fator que impressiona no álbum de estréia é a capacidade de faixas como “Hercules’ Theme”, “You Belong”, “Athene”, “Blind” e “This Is My Love”, entre outras, serem extremamente versáteis: o disco em sua maioria consegue ser arrasador, independente se é tocado em um set list onde um DJ traz uma pista de dança abaixo, ou em um volume baixo, como música ambiente acompanhado de qualquer outro afazer.

Até quando não manda tão bem, o álbum se destaca, como em “Iris”, faixa mais melosa dentre as dez inclusas no trabalho de estréia, cheia de sintetizadores e um vocal quase que bucólico na voz de Kim Ann.

O grande nocaute do projeto de Butler é a capacidade da banda em ir além da “disco”. Hora soam como space-disco, ora neo-disco e ora house, sempre invocando o melhor dos gêneros com vocais cheios de loops. O groove da banda é completo, bem executado e somado a devastadora voz de Antony Hegarty – ele mesmo, o Antony do Antony and the Johnsons – faz do quarteto uma rara exceção à regra, ficando a house music como o novo “huge comeback” musical.

O álbum de estréia foi lançado no dia 10 de março de 2008 (o single “Blind” uma semana antes) e a partir de maio a banda se prepara para sair em turnê por toda a Europa, participando de diversos festivais musicais como o Sónar Festival, que acontece todos os anos em Barcelona, Espanha, onde se apresentarão ao lado de nomes como Yelle, M.I.A., Frankie Knuckles, Goldfrapp e Justice, entre outros.

Não entremos naquela velha discussão se a banda em questão veio para salvar seu gênero. Sabe aquela famosa frase que diz “na dúvida, fique com o original”? Se tratando de H&LA, digo com segurança: desta vez, fique com o hype.

O que realmente importa e torna o trabalho de estréia dos caras, até aqui, como o melhor do ano: é de longe, o álbum mais original e promissor feito por um coletivo norte-americano em muitos anos.

(Para quem estiver a fim de curtir ao vivo um DJ set de Andy Butler, o produtor toca nos dias 18 e 19 de abril no Rio (69) e em SP (Vegas), respectivamente).

She & Him

A investida de atrizes na carreira de cantora pode causar sentimentos diversos. No século XX as lembranças são incríveis: Doris Day, Olivia Newton John, Ann Margaret (atriz-cantora, cantora-atriz), entre outras. Dos anos 2000 para cá as referências são no mínimo controversas: Paris Hilton, Hilary Duff, Lindsay Lohan, Scarlett Johansson e porque não Juliette Lewis que compensa seu talento musical limitado com um verdadeiro freak show em cima do palco.

A investida em uma carreira paralela que não a que consagrou uma “estrela” é vista com muita desconfiança pela crítica. Sorte – e talento – melhor teve Zooey Deschanel (Quase Famosos), que ao lado do músico de country-folk M. Ward começa chamar atenção com a banda She & Him, formada após cantarem uma música – “When I Get to the Border” (que não está na trilha), de Richard & Linda Thompson – no filme The Go-Getter, ainda inédito no Brasil.

Enquanto Deschanel alcançava o estrelato nas telas com o “Guia do Mochileiro das Galáxias” após ótimas atuações em filmes independentes, Ward não ficou para trás e despontou no meio musical ao co-produzir álbuns para Neko Case, Chan Marshall (Cat Power), Conor Oberst (Bright Eyes), Jim James (Morning Jacket), Nels Cline (Wilco) e Jenny Lewis (Rilo Kiley), além de fazer parte do grupo canadense Broken Social Scene.

Com uma sonoridade que remete ao country pop (ou folk-pop, que muito se assemelham ao soft-rock) dos anos 1970 o She & Him lançou recentemente seu primeiro álbum, intitulado “Volume One”. Dentre as 11 faixas, a voz de Zooey Deschanel entoa três covers: “Was Made For You” de Ronnie Spector, “I Should Have Known Better” dos Beatles e “You Really Got a Hold On Me”, que apesar de atribuída a John Lennon é de autoria do The Miracles, banda americana de R&B que fez certo sucesso nos anos 1960.

As oito faixas restantes foram escritas pela “she” que dá nome à banda e é em “Why Do You Let Me Stay Here” que o duo alcançou o sucesso e reconhecimento de fãs e críticas sendo uma das principais atrações do South by Southwest 2008, festival de música (e filmes) que religiosamente acontece todos os anos no mês de março na cidade de Austin, no Texas.

Enquanto Zooey, que quando pequena cantava em um coral, toca piano e banjo, Ward acumula três funções: a de back vocal, guitarrista e produtor do álbum. A voz de Deschanel é daquelas arrebatadoramente tristes que somada às letras românticas composta pela (ex?) atriz, muito se assemelham à fase Isobel Campbell do Belle & Sebastian.

Diferente da carreira como atriz, onde suas atuações eram muito destacadas, Deschanel aqui não tenta ser uma celebridade, muito menos chamar atenção por qualquer outra coisa que não seja sua doce voz, o que é inteligente, pois como uma menina apaixonada com seu melhor vestido, cantando diante de seu grande amor, ela não só encanta como convence.


Editor


Pedro Beck é jornalista e crítico de TV.


Contato:
pedrobeck@gmail.com

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