In Treatment

Lembro que em uma das vezes que sentei na cadeira defronte ao meu psicólogo, quando ainda não estava acostumado com toda aquela situação paciente-médico, imaginei se não haveria uma câmera escondida em meio a livros. Câmera que posteriormente serviria para arquivar cada palavra que eu esboçasse pronunciar naquele escritório.

Os anos se passaram e levaram com eles aquela idéia de desconfiança. Terapia, análise ou como queira chamar, tornou-se parte fundamental de minha formação como pessoa, independente do tipo de pessoa que me formou.

A idéia de vigiar ou ser vigiado sempre me intrigou. Talvez eu tenha assistido Arquivo X demais. Talvez alguns traumas perdurem por toda nossa vida. Talvez vigiar, espiar (sic Bial), xeretar a vida alheia seja dos maiores prazeres que o ser humano possa ter. Eu sei que eu gosto. Confesso até me identificar com o Peeping Tom do famigerado Michael Powell.

Não é todo dia que se vê seriado bom todo dia

Agora posso culpar a HBO por agravar ainda mais esta minha necessidade de observar. Estreou em janeiro nos EUA, em meio ao caos da recém encerrada greve dos roteiristas, In Treatment, série baseada no programa israelense de mesmo nome (Be’Tipul) criado por Hagai Levi.

Produzido, desenvolvido, escrito e dirigido por Rodrigo Garcia (diretor de obras-primas televisivas como Tell Me You Love Me, Amor Imenso, A Sete Pamos e Família Soprano), o programa já seria revolucionário o suficiente se só e simplesmente abordasse as consultas do Dr. Paul Weston e seus pacientes, mas Em Terapia não só o faz como o faz diariamente.

Estrelado por Gabriel Byrne e pela esplêndida duas vezes vencedora do Oscar Dianne Wiest (Hannah e Suas Irmãs, de 1987 e Tiros na Broadway, de 1995), entre outros, a nova atração da HBO norte-americana foi ao ar five days a week na TV estadunidense e será exibida no mesmo formato no Brasil. Por nove semanas, 43 episódios com meia hora de duração serão exibidos de segunda à sexta. Um colosso, não?

Como funciona

Às segundas-feiras, o Dr. Paul Weston trata de Laura (Melissa George), uma jovem e atrativa médica que se consulta com Paul há cerca de um ano. Laura vive uma crise em seu relacionamento e vive um dilema: terminar de vez ou casar com seu namorado Andrew. Mas este dilema parece ser reduzido a nada quando Laura revela a Paul que está apaixonada por ele desde a primeira vez que o viu.

Às terças-feiras, é a vez de Alex (Blair Underwood), um arrogante piloto de caça da marinha que exige usufruir sempre apenas do melhor disponível. Alex é um novo paciente e exige que Paul mantenha com ele a fama de “melhor psicólogo da cidade”. O que leva o piloto ao consultório é o fato de ter explodido uma pequena escola iraquiana e ter matado 16 crianças que nela estudavam.

Às quartas-feiras quem vai ao consultório é Sophie (Mia Wasikowska), uma precoce ginasta e adolescente que tem como meta atingir o índice olímpico. Sua vida desmorona após ser o pivô de um grave acidente. Ela então é encaminhada ao psicólogo para que seja determinado se a menina tem ou não tendências suicidas, já que aquele não foi o único grave acidente em que esteve envolvida.

Às quintas-feiras Paul trata de um casal: Jake (Josh Charles) e Amy (Embeth Davidtz). Este é o dia que não conseguiu me fisgar ainda. Enquanto Jake é um músico sem sucesso, Amy é uma executiva premiada com uma bela carreira a conta bancária. Após passarem cinco anos tentando engravidar, finalmente conseguem. Porém, Amy começa a ter dúvidas se o bebê viria em boa hora, pois sua vida profissional vai maravilhosamente bem. Já Jake não admite o aborto, repudia a terapia e acredita que Amy não é fiel a ele.

Às sextas-feiras, oh my god. O melhor dia de todos. O Dr. Paul Weston, parecendo carregar um piano nas costas após uma semana de consultas intermináveis, recorre a Gina (Dianne Wiest), psicóloga aposentada e ex-mentora de Paul. Na primeira sexta-feira do programa, Paul decide ligar para Gina, pois quer conversar. Os dois não se viam há anos, desde que uma briga os separou. Neste meio temo, Gina perdeu seu marido, completou 60 anos, se aposentou e começou a escrever um livro com suas memórias. Quando indagado por Gina sobre o porque de seu telefonema, Paul afirma estar perdendo a paciência com seus… pacientes.

O melhor de tudo é que se você não gosta de um dos pacientes ou da dinâmica que tal dia da semana tem, pode simplesmente pular aquela seção e ir para outra, se bem que não recomendo fazê-lo, pois pequenos detalhes podem se desencadear ao fim de tal episódio e não ter nenhuma relação com o paciente do dia.

Tratamento pós Sopranos

O mais impressionante é a atuação de Gabriel Byrne como Paul, um sujeito de 50 e poucos anos, dois filhos e uma filha e um casamento mais para lá do que para cá. Paul atende em seu próprio lar e é acusado por sua mulher Kate (Michelle Forbes), de ser um psicólogo cheio de gás em seu consultório e um velho sem vida dentro de qualquer outro cômodo de sua casa.

A veracidade das consultas, daqueles 22 minutos de televisão onde o paciente fica de frente para Paul contando de sua vida é de um realismo absurdo. A série é viciante a um ponto que você não quer saber o que vai acontecer na próxima seção de tal paciente: apenas o próximo episódio já basta. Talvez não seja uma questão de vício que nos prende em frente a TV e sim a esperança de achar ali, um pouco do que vivemos aqui.

Talvez Em Terapia seja demais para nós, a frente de seu tempo, não sei. Ou talvez Gabriel Byrne seja aquele ator que não nos cansa, que nos faz ter vontade de ficar vinte horas com a cara colada na TV enquanto magistralmente imita todos os “errs”, “hmmms” e outros ruídos diversos que psicólogos da vida real rugem quando confrontados com nossas indagações tão mesquinhas e mundanas.

Após o fim de Família Soprano, é o segundo show que a HBO leva ao ar cujo um escritório de psicanálise é o tema principal da série (o primeiro foi Tell Me You Love Me). Pelo visto os executivos da emissora estão desesperadamente precisando de terapia. Eu também. Todos os dias.

* * *

In Treatment estréia nesta segunda-feira (12/5) na HBO e será exibida de segunda a sexta, à partir das 20h25.

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10 Responses to “In Treatment”


  1. 1 Mariana Rezende May 12, 2008 at 3:36 pm

    vou criar um fórum de terapia online e vou ficar rica.
    ce vai ver.

    muito bom o texto, como sempre.

  2. 2 Matheus May 12, 2008 at 4:35 pm

    Can you hear me Major Tom?

  3. 3 Fernanda May 12, 2008 at 4:58 pm

    então a gente toma café de 19h às 20h em ponto, que às 20h15 eu quero estar sentadinha de pijama na frente da tv. pra sempre, todo dia nesse horário. =)

  4. 4 alepauka May 13, 2008 at 5:35 pm

    nossa, gosto tanto.
    E, aliás, foi vc quem me indicou.

  5. 5 Ricardo Cabral May 29, 2008 at 1:48 pm

    Bom, faltou retribuir a visita né? De fato, linquei este seu texto justamente porque fazia um ótimo sobrevôo pela série, o que me ajudou na hora de escrever o meu próprio post. E aproveito para te convidar a passar “lá em casa” de novo, pois fiz um novo post sobre a série.
    Abs

  6. 6 daniarrais May 29, 2008 at 5:26 pm

    só assisti a um ep, mas já virei fã! quero maratona! =*

  7. 7 maricmmc July 4, 2008 at 1:46 am

    Nunca vi a série mas depois de ler esse post estou curiosa!vou tentar baixar os episódios.
    achei seu blog na lista de blogs de amigos no Oficina de Estilo.Adorei,vou entrar sempre.
    bj

    PS:por acaso vc estudava no GIMK??

  8. 8 Ro August 13, 2008 at 1:09 am

    assiti aos primeiros capitulos dessa série e amei. achei estimulante.

    http://www.twitter.com/slowmind

    beijo


  1. 1 Em Terapia | Ágora com dazibao no meio Trackback on September 24, 2008 at 3:55 pm
  2. 2 Em Terapia | Agora com dazibao no meio Trackback on December 23, 2008 at 7:54 pm

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Editor


Pedro Beck é jornalista e crítico de TV.


Contato:
pedrobeck@gmail.com

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