Archive for June, 2008

Tell Me You Love Me

Matéria originalmente publicada no site Séries Etc.

O laço mais complexo que pode existir entre dois seres humanos é o relacionamento amoroso, afetivo – dividido com o eco em torno de quatro paredes. Os seres humanos são por si só cercados de tabus, paradigmas, anseios, receios e insegurança. Quem não ama ouvir que é amado? Melhor: quem não ama se sentir amado?

Partindo desta premissa – e a de que todo mundo é fodido por natureza – a HBO Brasil lança no dia 8 de junho, sem muito alarde, a série “Tell Me You Love Me”, que conta o dia a dia de quatro casais: o de 20 e poucos anos, o de 30 e poucos anos, o de 40 e poucos anos e, dando um salto maior, o casal de 70 e poucos anos.

Parando aí, a série já seria fantástica, pois aborda os grandes dilemas de cada faixa etária (chegaremos aos dilemas), mas ela vai além. Aproveita-se por estar em um canal a cabo (nos EUA também é da HBO) para virar quase um soft-porn europeu. Você aí de 20 e poucos anos, transa, não? De 30 também, certo? Então, na série não teria porque o sexo não fazer parte da vida de um casal. Em Diz Que Me Ama – título nacional – não há espaço para falso moralismo. Como disse Rodrigo Garcia, um dos diretores da série, mente por trás da também excelente “In Treatment”: “Esse negócio de que mulher se cobre com o lençol até o pescoço depois do sexo não existe”.

Série é criticada por mostrar demais

Em uma coletiva de imprensa, a primeira pergunta que Cynthia Mort, criadora da série, foi obrigada a responder, foi a seguinte: “E aí, Cynthia, é tudo verdade como parece?”.

As cenas de sexo em “TMYLM” são de um realismo assustador. Apesar de negar veemente que seriam de fato, reais, Mort e sua cria foram – e estão sendo – severamente criticados – aqui, negativamente – pelo uso em excesso de sexo e, principalmente, nudismo frontal.

Talvez o que mais perturbe são as cenas que parecem ser protagonizadas por mim ou por você, pois são simplórias ao extremo: masturbação, sexo oral, aquela briga em um domingo ocioso que logo se transforma em uma inesperada rapidinha no sofá. O maior motivo das críticas ao programa não é apenas a sua simplicidade ao abordar e desconstruir relacionamentos e sexo, mas seu realismo: Tell Me descarta qualquer “glamouralização” hollywoodiana, mega produção ou maquiagem para esconder mamilos, pênis, enfim, ângulos pouco convencionais das genitálias do sexo masculino e feminino.

Os casais

Michelle Borth e Luke Farrell Kirby interpretam Jamie e Hugo, respectivamente, casal de 20 e poucos anos dividido por atos impulsivos ligados a qualquer jovem e a vontade de oficializarem sua longa relação trocando alianças. Em determinado momento do episódio piloto, os dois conversam:

JAMIE: Você flerta e eu odeio!
HUGO: Eu preciso estar apaixonado por alguém que confie em mim.
JAMIE: Você deveria estar. Só não acho que esta pessoa seja eu.

Porém, como qualquer jovem casal, pecam pela falta de segurança e maturidade em seu relacionamento. Hugo flerta com outras mulheres e Jamie não só sabe como detesta. Quando ela suplica ao cara por uma maior segurança, mais gestos de afeto – como quando ela pede para ele dizer que a ama e que nunca a irá trair -, ele responde o que todas as mulheres nunca desejariam ouvir:

HUGO: Não posso dizer isso. Não sabemos como será o amanhã, Jamie. Você realmente acha que serei o último cara para quem você vai dar na vida?

E o relacionamento começa, vagarosamente, a desmoronar. Alguns episódios depois, Jamie vai à procura de terapia e acaba no escritório da Dra. May Foster.

Sonya Walger (a Penny de Lost) e Adam Scott interpretam Carolyn e Palek, respectivamente, casal de 30 e poucos anos que tem um casamento estável, porém desequilibrado emocionalmente pela incapacidade de conseguirem ter um bebê. Ambos são saudáveis e sadios, os espermatozóides de Palek são “vencedores”, segundo seu médico, mas o casal já tenta a mais de um ano ter um filho, em vão.

Os dois protagonizam as maiores cenas de sexo explícito do programa, afinal, buscam incessantemente, um terceiro membro para a família – e o sexo em busca de um bebê não é o sexo apaixonado que um casal jovem faz quando volta pra casa, é uma transa rápida, fria, sem emoção: quase um estupro. Não. É um estupro. Com a frustração pelo insucesso, os dois acabam procurando uma terapia de casal com a Dra. May Foster.

O terceiro casal é formado pelos atores Ally Walker e Tim DeKay, que interpretam Katie e Dave, respectivamente. Os dois formam provavelmente, o casal mais fucked up do seriado. Katie entrou nos 40, é sozinha, tem um casal de filhos para cuidar e poucas amigas. Dave, é distante, parece ter repulsa por Katie e os dois, casados há 15 anos, não transam a mais de um ano – o que não impede Dave de, vira e mexe, se masturbar na cama.

Katie, mais insatisfeita que Dave, tenta reverter a situação – sem muito sucesso -, e ela acaba no consultório da Dra. May Foster, mas Dave se recusa a participar do que seria uma terapia de casal.

O último casal é representado pelos atores Jane Alexander e David Selby. Alexander interpreta justamente a Dra. May Foster, cuja presença na tela torna o seriado ainda mais sofisticado, pois após abordar casais problemáticos em crises de fidelidade, gravidez e sexo com seus cônjuges, o show oferece os anseios da psicóloga e seu casamento de 43 anos de duração.

Por ela e seu marido fazerem parte da chamada terceira idade, a TV convencional – não falo da TV aberta, mas outros canais a cabo – provavelmente nos pouparia de cenas de sexo envolvendo os dois. No duro? Por quê? Certo que idosos de 70 e poucos anos de não fazem tanto sexo assim, mas May e seu marido Arthur transam que nem coelhinhos: o terceiro episódio da série se encerra com os dois fazendo sexo e May sussurrando ao ouvindo de Arthur:

MAY: Me come! Me fode! Entra dentro de mim.

A série não só é excepcional em seu visual e realismo, mas em sua concepção de que todos os casais de diferentes faixas etárias são iguais: as mulheres de 20 e poucos têm medo de infidelidade, as de 30 de não conseguirem constituir uma família e as de 40 de viverem sozinhas, sem sexo. Os homens de 20 e poucos anos têm dificuldade em se manter em um único relacionamento, os de 30 em acompanharem persistentemente o desejo de sua mulher em ter um filho e os de 40 em manterem o desejo e prazer de fazer amor com sua parceira.

É uma generalização, que verdadeira ou não, dá certo e transforma Tell Me You Love Me na melhor estréia da temporada passada de seriados norte-americanos.

Tell Me You Love Me
Aos domingos, às 22h00
Demanda: 10 episódios
Canal: HBO Brasil
http://www.hbo-br.tv/


Editor


Pedro Beck é jornalista e crítico de TV.


Contato:
pedrobeck@gmail.com

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