Archive for November, 2008

Felipe Ricotta

Conheci Felipe Ricotta em meados de 2005. Ainda residente do Rio de Janeiro, trabalhava em uma revista de música chamada Laboratório Pop, edita por Mario Marques, figurão do jornalismo musical, atual Jornal do Brasil. Eu sabia que tinha um tal de Ricotta na revista, mas não o conhecia pessoalmente.

Através de uma amiga em comum, a Dannie Cortez, no Bar que Nunca Fecha, ali do lado da São Clemente, em Botafogo, sentei pra beber quase cinco da manhã com a Dannie, umas amigas dela e dois caras que vira e mexe eu cruzava na noite do Rio. Conversa vai, conversa vem, descubro que o sujeito ao meu lado era o tal do Ricotta, e daí, desembestamos a conversar até o primeiro arredar.

Pouco tempo depois, sem mais nem menos, me mudei para São Paulo, sem saber muito bem o motivo. O que eu sei é que cerca de um ano depois, cruzei com o Ricotta no messenger e ele veio me falar que estava se mudando para São Paulo. Que viria trabalhar na MTV. Outro ano se passou e resolvi entrevista-lo.

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Pedro Beck: Como você chegou na MTV?

Felipe Ricotta: Eu cheguei na MTV porque eu mandei um e-mail pra lá dizendo que eu tava indo pra São Paulo mudar o mundo.

PB: E aí eles te chamaram pra conversar?

FR: Daí eu tinha uma idéia de programa, eles me ofereceram uma vaga pra trabalhar na produção e eu topei.

PB: Eu lembro que te perguntei uma vez, quando você tava indo pra lá (MTV), se você era formado em jornalismo. Você lembra o que você me respondeu?

FR: Não…

PB: Que era formado em mulher e maconha. Com quase dois anos de MTV, continua só em mulher e maconha ou você tá curtindo essa área e pensa em trampar só com isso no futuro?

FR: Cara, agora eu saí fora da casa. To abrindo a Ricotta Produções ano que vem e to rodando por aí divulgando minhas músicas.

PB: Ricotta Produções? Qual vai ser?

FR: Cara, a gente vai fazer clipes e gravar outras bandas. Vai ter um estúdio de ensaio, vão rolar umas festas, enfim, fazer de tudo um pouco.

PB: E a tua banda? Tem mesmo seu nome? Que porra é essa?

FR: Então, eu to com uma banda no Rio e outra em SP.

PB: Fala, aí…

FR: Esse mês faço três shows aqui no Rio com a banda daqui (14/11 18/11 e 24/11) e dia 25/11 faço em São José dos Campos com a banda de lá que são três malucos de fortaleza


Felipe Ricotta – “Eu Não Consigo Ser Tão Teu”

PB: E tua banda antiga, o “Carol Azevedo Morreu”? Que nome é esse? É recalce de corno? Sempre achei esse nome sensacional.

FR: Porra, Beck, o nome da banda era só “Carol Azevedo”.

PB: Eu inventei o “morreu”?

FR: Mas ela nunca andou… eu tenho um material que nunca foi gravado, mais de 20 músicas. Pretendo gravar um dia. O “morreu” é só o e-mail da banda.

PB: Por falar em material que nunca foi gravado de verdade, lembra da session Mario Marques Blues que gravamos com o Daniel? Caralho, aquilo foi sensacional.

FR: Precisamos depois entrar em estúdio e gravar algo, cara. ‘Pedro Beck e os Irmãos Brothers’.

PB: Boa! Tipo ‘Nashville Sessions’ do Dylan com o Cash. Já ouviu? É sensacional e tinha muito improviso alí.

FR: O improviso é a parada.

PB: Como você define o som de suas bandas?

FR: Com a do Rio, a gente toca as músicas do primeiro disco. Com a de SP, a gente muda os arranjos das antigas e toca as novas do segundo disco

PB: Você bebe em que outras bandas pra compor?

FR: De onde eu bebo? Po, meu som é bem diferente das minhas bandas preferidas, então sei lá, eu bebo de mim mesmo e de quem tá tocando comigo

PB: Não é pretensioso falar que não de bebe de nenhuma banda que curte?

FR: Acho que não, cara. Porque as influências para compor não vem só de bandas. Por exemplo, eu sou fã pra caralho de Ryan Adams, Ben Folds, Superdrag, Lemonheads… e eu não consigo encontrar muito deles ali na minha obra. Na verdade, eu dialogo muito com eles, é como se fosse uma competição saudável: “Porra, olha só essa música que esse filho da puta fez, que foda. Vou seguir por um caminho totalmente diferente.” Uma vez eu tava pensando em um arranjo para uma musica nova e semanas depois saiu um disco do Ryan Adams em que ele tinha feito exatamente o que eu tinha imaginado em fazer! Daí eu desisti da idéia. E tem uma música nova do Ben Folds que no refrão ele canta exatamente o que eu canto em “Afronta”, só que inglês. São as coincidências cósmicas.


Felipe Ricotta – “Três Meses”

PB: E São Paulo? O que tá achando? Outro carioca que veio pra ficar? Acho essa cidade muito louca, cara.

FR: Cara, agora eu to feliz de morar em São Paulo porque estou podendo sair da cidade com mais frequência. Mas eu amo.

PB: Porra, quando eu vou para o Rio eu fico em depressão: parece que aquela merda parou no tempo, não? Tipo Cuba. Ou Santos.

FR: Porra, cara. Sei lá. Ontem era segunda-feira, passei na porta do Empório e tinha um movimento. Tinha uns bandas novas tocando na Melt… eu estou na onda riponga. Tá tudo bem em qualquer lugar e todo mundo é muito legal o tempo todo.

PB: Então você acha que a noite do Rio é boa sim, ao contrário do que falam?

FR: O rock tá ressurgindo no Rio de forma violenta.

PB: Onde? Eu não vejo isso.

FR: A Tijuca é a nova Seattle… Foda-se. Agora eu já falei.

PB: O grunge ta voltando?

FR: O que vai rolar agora é uma mistura de grunge com hippie.

PB: Você tá me dizendo que um novo movimento musical ta surgindo e ele começa… na Tijuca?

FR: Vai ser a resposta do orgânico para a invasão eletrônica. É, cara. As pessoas vão se rebelar contra os computadores e os celulares.

PB: E essa onda electro que São Paulo não consegue parar de respirar? Aliás, Sao Paulo tem vida própria ou bebe mais do que devia do exterior?

FR: Essa onda electro tá enchendo o saco já. Não vai durar porque é baseada em bala e pó, e não em maconha. Então o público não dura muito. Ninguém aguenta muita química na cabeça por muito tempo. Daí quando bate a deprê, as pessoas se voltam pra música feita para o coração e não para o corpo.

PB: Mas e aí, você falou pra MTV que ia mudar o mundo. Está mudando?

FR: Se eu estou mudando o mundo? Pra caralho!

PB: Pra terminar… quem manda mais? Cash, Dylan ou who cares?

FR: Quem manda mais? Gram Parsons, porra!


Editor


Pedro Beck é jornalista e crítico de TV.


Contato:
pedrobeck@gmail.com

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