The Good Wife e o fascínio pela humilhação pública

O prólogo de ‘The Good Wife’, novo drama da CBS, possui uma das melhores sequências da TV aberta nos últimos anos: Alicia e Peter Florrick, de mãos dadas, atrás de uma porta. Do outro lado desta porta, milhares de jornalistas esperam por uma coletiva de Peter (interpretado por Chris Noth, o Mr. Big de ‘Sex And the City’), político do estado de Illinois acusado de desviar dinheiro público e flagrado em câmera praticando sexo com prostitutas. A cena inteira tem como trilha sonora a batida violenta do coração de Alicia, magistralmente interpretada por Julianna Margulies, a boa esposa que dá título ao seriado.

thegoodwife

Com constantes revelações de escândalos políticos nos Estados Unidos, ‘The Good Wife’ não poderia ter vindo em melhor hora. Além de preencher um espaço vazio que outrora já foi de séries como ‘The West Wing’, ‘Spin City’ e até ‘Commander in Chief’, a série tem uma áurea “‘Damages’ para tv aberta”, ou seja, uma trama complexa mas com menos reviravoltas e sem flashbacks.

O piloto avança seis meses. Após a prisão de Peter, que sempre que possível alega inocência – pelo menos no que se refere as acusações de desvio de dinheiro público -, Alicia é obrigada a enfrentar o papel de chefe da família, retomando sua carreira de advogada, a qual não exercia há 13 anos, tempo dedicado exclusivamente aos filhos e ao marido. Ela é contratada por uma grande firma de advocacia, onde se torna uma associada-junior e sofre com os maltratos da única sócia do sexo feminino da firma: Diane, em ótima interpretação de Christine Baranski. Alicia é quase uma figura pública e sua chegada na firma se torna conversa de corredor, mas como diz Diane em determinado momento do piloto, apontando para uma foto sua com Hilary Clinton: “Se ela consegue, você consegue”.

A protagonista é logo designada para um caso praticamente perdido pela firma por falta de novas testemunhas a favor do acusado. Enquanto corre contra o tempo para provar que é capaz de dar um novo rumo ao julgamento, ela precisa se preocupar com o jovem Cary Agos (Matt Czuchry, o Logan de ‘Gilmore Girls’), outro novo associado-junior da firma, que disputa com ela um único cargo de sócio que será aberto pela firma alguns meses dalí, além de sofrer nas mãos de juízes e promotores, muitos deles inimigos de seu marido.

Fora do trabalho, Alicia ainda tem sua sogra que agora cuida de seus filhos (Grace e Zach) e a desilusão de Peter, que acredita que uma apelação de seu caso esteja muito próxima de acontecer. Ao mesmo tempo em que demonstra o mínimo de compaixão indo visitar seu marido na cadeia, a interpretação de Margulies passa a imagem de uma mulher segura, que sim, decidiu permanecer ao lado de seu marido, mas é tão fria e tão distante que sua raiva se torna clara ao dizer para Peter que está pouco se lixando para sua apelação, enquanto circula na Internet um vídeo dele chupando os dedos de uma prostituta.

O perigo de uma série como ‘The Good Wife’ é justamente sua superioridade intelectual perante ao básico da programação aberta. Mas os criadores, Robert e Michelle King (marido e mulher), parecem buscar um balanço pleno entre o drama serializado de uma mulher traida e humilhada, e a história de uma mulher com um novo emprego disposta a dar a volta por cima. ‘The Good Wife’ não possui um grande mistério que demorará toda uma temporada para se desvendar, o que ajuda a criar mais facilmente uma base de telespectadores – um público menos exigente que busca apenas entretenimento. O fato de ser um show com boa publicidade e ser exibido pela CBS ajuda muito, já que qualquer arroz com feijão na emissora, quando bem trabalhado, logo torna-se um hit.

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Editor


Pedro Beck é jornalista e crítico de TV.


Contato:
pedrobeck@gmail.com

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