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40 anos de Star Trek*

Matéria originalmente publicada na revista Seriados de TV.

No dia 8 de setembro de 1966 a rede norte-americana de televisão NBC deu sinal verde para a tripulação da nave estelar USS Enterprise levantar vôo. 40 anos depois, a missão ainda ocorre.

O impacto cultural da marca “Star Trek” vai muito além das telas de cinema e televisão. Em 40 anos de história, Star Trek emprestou seu nome para 4 séries de TV, 11 longas-metragens no cinema, 46 videogames, 7 role playing games, 3 máquinas de fliperama, 10 jogos de tabuleiro e 1 jogo de cartas. Isso tudo sem falar no universo expandido e todos os produtos não-oficiais criados por fãs.

A Criação

No dia 8 de setembro de 1966 a NBC levava ao ar o programa que viria ser a série de maior culto de todos os tempos – é por aí, sem controvérsias. Jornada nas Estrelas, ou Star Trek no original. O termo refere-se a um universo de ficção científica criado por Gene Roddenberry, e é um dos nomes mais influentes do século XX no que diz respeito a entretenimento sci-fi.

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Estrelada pelos memoráveis William Shatner (Kirk), Leonard Nimoy (Spock) e DeForest Kelley (Dr. McCoy), contava a história de uma tripulação representante da Federação dos Planetas Unidos (FPU) e suas aventuras onde nenhum homem jamais pisara. Em uma visão totalmente utópica do futuro – mais especificamente do século XXIII, e coloca totalmente nisso – os representantes da Federação encontravam-se em uma missão de cinco anos cujo objetivo era a exploração de novos mundos, formas de vida e civilizações.

Apesar de todo frisson que se causou em tono da estréia, seus níveis de audiência eram baixos e para o desespero dos fãs, houve uma ameaça de cancelamento no final do segundo ano. Depois de uma campanha de divulgação por parte dos trekkers, talvez ainda maior do que a NBC seria capaz de fazer – já que em nenhum momento conseguiu promover a série – uma terceira temporada foi encomendada. O programa passou a ser exibido às sextas-feiras, limbo em que até hoje nenhuma série com raras exceções – vide Arquivo X – consegue sobreviver. E então, novamente os índices de audiência foram insignificantes e no dia 3 de junho de 1969 foi decretado o fim de Star Trek.

Foi através das reprises, depois de sua curta vida, que a série alcançou seu apogeu. Por meio da divulgação boca-a-boca (o peer-to-peer atual) e do reconhecimento de sua originalidade por parte de outras emissoras que compraram os direitos de exibir reprises do programa, a série tornou-se um fenômeno. A repetição nesses canais só fez aumentar o número de fãs espalhados pelo mundo, afinal ela acabou sendo exibida em diversos países.

No Brasil, a série foi originalmente exibida pela extinta TV Excelsior no final da década de 1960 e posteriormente pela Rede Bandeirantes, sendo transmitida até os dias atuais, agora nas mãos do Universal Channel.

O Criador

O principal “culpado” pela criação das idéias e plots centrais de Star Trek foi um sujeito chamado Wesley Eugene Roddenberry, ou, Gene Roddenberry. Responsável pela produção, pelos roteiros e pela direção da série, o cara passou o começo da década de 1960, trancado em um quarto dando forma às suas idéias.

Com propostas talvez exageradamente inovadoras para a época, como um Primeiro Oficial mulher e um Oficial Cientista com orelhas pontudas e pele vermelha – originalmente proveniente de Marte – entraram em cena DC Fontana e Gene L. Coon, respectivamente sua secretária e um amigo próximo, que juntos de Roddenbery, criaram a USS Enterprise 1701 – também foi de Coon a concepção dos Kligons. Apesar de diversas opiniões positivas que enriqueceram o universo criado por Roddenberry, preferiu contrariar seus chegados e manter como Primeiro Oficial uma mulher, além de definir que a tripulação seria cinqüenta por cento feminina, outra atitude no mínimo ousada para a época.

O ano era 1964, e com um plot caprichado e todo um universo bem definido, era hora de vender seu peixe. E foi através do termo “western espacial” que Gene apresentava o piloto original – “The Cage” – para diversas emissoras televisivas, divulgando sua criação como uma versão futurista das histórias de bang-bang tão populares naqueles tempos.

Depois da recusa imediata da CBS que alegou procurar por um foco um pouco diferente, Roddenberry fez seu primeiro contato com a NBC que se recusou a produzir a série, alegando ser demasiada cerebral e ter pouca ação. Porém, confiantes no talento do criador e impressionados por sua originalidade, os executivos sugeriram que ele trabalhasse um pouco mais, revisse alguns conceitos e voltasse para apresentar um segundo episódio piloto. Um dia histórico. Nascia ali “Where No Man Has Gone Before”.

Spin-offs: As séries derivadas

Os spin off, ou séries derivadas, baseadas em outras séries já existentes, são mania hoje em dia. Tome Buffy e as franquias CSI e Law & Order como exemplo. Mas esta mania surgiu na verdade com a franquia de Roddenberry, que no acúmulo dos últimos 40 anos, é responsável por outras 4 séries de TV e uma animação dublada pelos mesmos atores da série original. São elas: The Animated Series, The Next Generation, Deep Space Nine, Voyager e Enterprise.

The Animated Series

A série animada surgiu em 1973. No formato convencional de séries infantis, exibiu um total de 22 episódios (divididos em duas temporadas). Apresentava como principal chamariz, as vozes originais dos mesmos atores da série de 1966.

Apesar do nome famoso que levava, a série decepcionou. Mesmo com toda a liberdade que a animação concedia para as grandiosas paisagens, a qualidade do desenho era de gosto muito duvidosa – e ainda estamos sendo gentis -, fato atribuído principalmente ao baixíssimo orçamento.

Vale ressaltar que os acontecimentos do desenho não faziam parte da cronologia oficial do universo Trek, algo que na época, causou muito reboliço.

The Next Generation

Datada 90 anos após as primeiras missões da Enterprise original, inovou ao apresentar ao lado de uma nova tripulação, uma nova nave estelar: a Enterprise-D. Esta primeira franquia não-animada estreou em 1987 com um episódio duplo de duas horas de duração. Ao longo de sete temporadas, teve uma audiência respeitosa e trouxe ainda mais adeptos para a mitologia criada por Roddenberry.

A série divergiu consideravelmente da idéia original. O mais interesse neste primeiro “filhote”, fator de maior credibilidade, foi a inserção de novos personagens na mitologia, como por exemplo, o Capitão Jean-Luc-Picard, e o andróide Data, que durante as temporadas persegue insaciavelmente o objetivo de se aperfeiçoar e se tornar “mais humano”.

TNG foi a série que obteve maior audiência de todas as séries da franquia e foi a única a ser nomeada para o Emmy, tendo concorrido em 1994, em sua última temporada, na categoria Melhor Série de Drama.

Deep Space Nine

Apesar do final de The Next Generation ter acontecido em 1994, antes disso, no ano de 1993, mais uma série do universo criado por Roddenberry estreava na TV. Foi a primeira e última vez que duas séries baseadas em Star Trek foram ao ar paralelamente. Deep Space Nine foi a primeira e única série situada em uma estação espacial ao invés de uma espaçonave.

Debutou em janeiro de 93 e narrava os acontecimentos sucedidos na estação espacial que da o nome a série. A mesma se localizava perto de um “buraco de verme” – espécie de túnel no espaço-tempo – que permitia uma viagem imediata para o distante Quadrante Gama da galáxia, um dos quatro quadrantes da via-láctea. Devido a extraordinária localização, a estação acabava se tornando um importante centro de comércio do espaço, vital para a exploração do infinito universo.

A série teve seu fim decretado no dia 2 de junho de 1999, depois de sete temporadas ou 176 episódios.

Voyager

Lendária por ser a única série da franquia que apresenta uma nave comandada por uma mulher, a capitã Kathryn Janeway, a série teve um início frenético no ano de 1995 mostrando em seu primeiro episódio os eventos que se sucederam depois que a nave USS Voyager é misteriosamente transportada para o Quadrante Delta, a setenta e cinco mil anos-luz da Terra.

Tendo seus eventos datados basicamente na mesma época de Deep Space Nine, a série inovou ao excluir vários fatores e raças que até então eram considerados fundamentais em todas as franquias da série. Apesar do susto inicial, a ousada iniciativa possibilitou a criação de novas raças e novas tramas na mitologia da franquia fazendo com que Voyager também tivesse uma vida de sete temporadas.

Enterprise

O diferencial de Enterprise está no fato de ser um prelúdio das restantes e não uma seqüência. As aventuras do episódio piloto acontecem dez anos antes da fundação da FPU, entre os eventos mostrados no filme Primeiro Contato, e a série original.

O prelúdio, que foi ao ar entre 2001 e 2005, mostrava a exploração do espaço por uma tripulação capaz de ir mais longe e rápido que qualquer ser humano anterior. A equipe era comandada pelo capitão Jonathan Archer, sujeito impulsivo que junto de seus comandados, tinham de enfrentar pela primeira vez espécies pra lá de conhecidas por nós como os Borgs e Kligons.

Outro fator marcante era que como prelúdio, mostrava os Vulcanos como uma espécie militarmente agressiva e conseqüentemente, os fatos que os levaram à postura quase monástica conhecida das séries anterior e descrita na série original.

A série teve uma vida de quatro temporadas (duas delas graças aos fãs) tendo até um bom e promissor começo, mas foi perdendo audiência ao longo dos anos e acabou cancelada em fevereiro de 2005.

Da TV para o cinema

Contando com o último longa-metragem dirigido por JJ Abrams, foram exibidos 11 longas no cinema baseados na franquia de Roddenberry.

Estes filmes podem ser divididos em três categorias: os baseados na série original (O Filme, A Ira de Khan, À Procura de Spock, A Volta Para Casa, A Fronteira Final e A Terra Desconhecida), os baseados em diferentes franquias da série (Generations) e os baseados exclusivamente em The Next Generation (Primeiro Contato, Insurreição e Nêmesis).

“Star Trek: O Filme” foi inicialmente criado para chegar aos lares norte-americanos e não aos cinemas, a idéia era de uma segunda série planejada para a primavera daquele 1978. O título da franquia que nunca existiu seria “Phase Two”, e a idéia central era mostrar a tripulação original da Enterprise em uma nova missão de cinco anos.

“Um modo de vida, uma filosofia, uma obsessão”

Acredita-se que a franquia Star Trek tenha sido responsável pela motivação da criação de diversas tecnologias como computadores mais avançados, o notebook e os celulares. Star Trek também se destaca por ter trazido a discussão sobre teletransporte à sociedade científica.

O sucesso e reconhecimento pelo lado cientifico é tão grande que as cinzas de Gene Roddenberry, falecido em 1991, foram enviadas ao espaço em 1997 no que se pode chamar de primeiro “vôo espacial funerário” realizado pelo homem.

*43 anos, na verdade.

Dead Like Me – The Movie

Os norte-americanos e sua obsessão por transformar seriados em filmes. Isto acontece desde que a TV existe, é verdade, mas é possível contar nas mãos os trabalhos revelantes que foram derivados de seriados – nestes, incluo Beavis and Butt-Head Do America, Arquivo X – Fight the Future, Os Intocáveis e MASH, entre poucos outros. Dead Like Me – O Filme não é o caso.

Estrelada por Mandy Patinkin (“Chicago Hope”, “Criminal Minds”), “Dead Like Me” foi uma dramédia levada ao ar pelo canal a cabo Showtime no ano de 2003 e contava a história de Georgia “George” Lass, uma menina perdida em seus 18 anos: sem ambições, emprego, diploma, amigos. Joy – repara no nome -, mãe de George, a força a conseguir um emprego em uma agência de empregos temporários chamada Happy Time, que acaba por selar o destino da menina, uma vez que ao sair para sua primeira hora de almoço, é vítima fatal de um assento sanitário que cai de uma estação espacial.

Onde uma história de vida deveria acabar, é apenas onde começa. George descobre que foi escolhida para ser uma Ceifadora de Almas e após conhecer seus co-workers, sua nova vida e seu novo trabalho, começa a questionar sobre suas escolhas quando era viva. Em suma, Dead Like Me era uma série sobre a vida após a vida.

Por diversos motivos incluindo problemas contratuais e a venda da MGM para a Sony, “Dead Like Me” foi cancelada em 2004, após duas temporadas, deixando para fãs e críticos, aquela sensação de que poderia ter rendido muito mais – não há dúvidas quanto a isto.

Eis que cinco anos depois, é confirmado o boato que há muito rondava diversos sites e foruns sobre seriado: Dead Like Me se tornaria um filme. Nunca fui um destes entusiastas da idéia, mas o filme aconteceu. Pior: foi lançado com release direct-to-DVD e sem Mandy Patinkin, que não aceitou fazer o projeto – sábio. Sim, eu acredito que a série ainda tinha alguma coisa a dizer, mas não acredito que isto poderia ser feito através de um filme de oitenta minutos em DVD. Não é o formato ideal e ainda, considero a linguagem da série um pouco datada.

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E a verdade, é que para não dizer nada, pouquíssimas coisas funcionam no filme. A fita abre com uma narração similar a de George na series premiere da série: todo aquele lenga lenga sobre como Deus criou a morte e como a mesma fugiu, aquele lance do sapo e tudo mais. Mas já começamos com um porém: esta abertura é feita através de uma linguagem de quadrinhos, ou seja, vemos tudo isto em uma HQ que tem suas páginas viradas conforme Goerge vai narrando a história. Me desculpe, mas por quê? O que a temática quadrinhos tem a ver com “Dead Like Me” ou com a mitologia da série? Nada. Esta temática é usada e abusada durante o filme.

Outro grande problema é que o filme, que tem apenas uma hora e vinte, perde quase 10 minutos introduzindo as personagens, fato extremamente irritante. Ao contrário de filmes como Beavis and Butt-Head Do America, Arquivo X – Fight the Future, Os Intocáveis e MASH, fica claro que não é um filme apenas para fãs, para matarmos a saudade das personagens, e sim um produto voltado a conquistar novos adeptos. Por que motivo eu realmente não sei, considerando que a série tem ZERO chance de voltar ao ar e uma franquia cinematográfica é praticamente uma utopia – ainda bem.

O plot do filme é o seguinte: err… qual é o plot do filme? São tantos, ao mesmo tempo, que tudo é tão profundo como um pires. Temos o plot do desaparecimento de Rube, temos o plot de George se aproximando de Reggie, temos o plot de Reggie apaixonada por um menino em coma, temos o plot do sofrimento de Delores com os últimos dias de seu gato Murry, temos o plot de Joy (Cynthia Stevenson perfeita como sempre) se aventurando como autora de auto-ajuda e mediadora de grupos para pais que perderam filhos, e temos o plot da chegada de Cameron, o substituto de Rube.

O filme não tem um plot principal e com isto, todos se tornam bobos, supérfluos. Para que introduzir um novo chefe, se Cameron (interpretado por Henry Ian Cusick, o Desmond de “Lost”), aparece na tela por no máximo cinco minutos ou quatro cenas? E o que dizer de Crystal, recepcionista da Happy Time, uma das melhores personagens da série, que no filme, aparece em apenas UMA CENA sem ter ao menos UMA FALA? E qual foi da descaracterização do Mason? Na série ele era um loser, fracassado, que não conseguia se dar bem com mulher alguma. No filme, eis que ele se torna um garanhão e pega duas ao mesmo tempo.

Delores Herbig… and her big brown eyes continua incrível. Retomamos um dos plots do final da série, a doença de Murry, e ela proporciona as cenas mais engraçadas do filme. Roxy não muda muito também e continua badass. Já Daisy, que na série era magistralmente interpretada por Laura Harris, aqui é terrivelmente vivida por Sarah Wynter – que em uma coincidência bizarra, contracenou ao lado de Harris na segunda temporada de “24 Horas”. Se Harris não quis voltar, por que não deixar sua personagem quieta? Ou por que não introduzir uma nova interpretada para Wynter?

Ellen Muth continua incrível com aquela mesma cara de bunda e sexy ao mesmo tempo. O problema é que o plot de George se aproximando de Reggie simplesmente não cola. As duas se reencontram porque o namoradinho secreto de Reggie na escola é um atleta que sofre um acidente e entra em coma. E adivinhem? George é a responsável por recolher a alma do cara. Tudo no filme é forçado demais.

Impossível contar os erros deste filme, que já se desenhava uma bomba quando Bryan Fuller, produtor original da série, recusou-se a participar do mesmo. “Dead Like Me” foi uma série muito importante para o Showtime, ajudou a consolidar o canal a cabo no mapa, mas sua mitologia parece meio ultrapassada, para não dizer brega. “Dead Like Me – The Movie” é um exemplo de como algumas coisas enterradas, devem permanecer assim. Mas o que realmente assusta é que o filme acaba com um SUPER cliffhanger (gancho) que, dependendo das vendas do DVD, pode ocasionar uma continuação.

Timecrimes

Um dos grandes filmes do gênero fantástico no ano de 2007 é o pequeno “Timecrimes”. Vencedor de três prêmios internacionais (Melhor Filme no Amsterdam Fantastic Film Festival de 2008, Melhor Filme no Austin Fantastic Fest 2007 e Melhor Filme Segundo o Público no Philadelphia Film Festival de 2008), este filme espanhol começou sua carreira em festivais no dia 20 de setembro de 2007, em Austin, mas alcançou um grande público apenas em dezembro de 2008, com um limited release nos EUA.

Los Cronocrímenes (no original) é o primeiro longa de Nacho Vigalondo, também diretor do curta “7:35 de la mañana” (aka 7:35 in the Morning), vencedor do Oscar de Melhor Curta-Metragem em 2005, entre diversos outros prêmios.

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Em “Timecrimes”, um legítimo low-budget, o diretor mostra o que acontece quando Hector, acidentalmente, entra em uma máquina do tempo e volta uma hora no passado. Dar de cara com ele mesmo é apenas um das diversas consequências bizarras que esta viagem insólida causa. O filme é magistralmente estrelado pelo ator Karra Elejalde, pela belíssima Bárbara Goenaga e pelo próprio Nacho Vigalondo, como o jovem responsável por fazer Hector voltar uma hora no tempo.

Filmes que abordam viagens no tempo são sempre um pouco controversos. Lembro-me do que disse Richard Kelly, diretor de “Donnie Darko”, quando um jovem o confrontou em uma mesa redonda no Festival de Sundance em 2001, afirmando que o roteiro do filme possuia diversos furos: “É simplesmente impossível um roteiro que aborda viagem no tempo não possuir furos”. Sendo assim, quando você assistir ao filme, mantenha em mente seu valor como entretenimento e como exercício dos filmes de viagem no tempo.

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Abrindo mão de grandes atores, protagonistas atraentes, efeitos especiais e violência ou nudez gratuita – e considerando o plot complexo -, o resultado final entregue é memorável. Desde o começo do filme você sabe o que vai acontecer, mas não entende exatamente como tudo começou ou como tudo terminará. É exatamente aí o grande mérito do Vigalondo – também roteirista: o filme é perfeitamente amarrado – mesmo que algumas pontas tenham dois nós.

Quando se trata de excessos de viagens no tempo, em algum momento, os filmes acabam se perdendo, tornam-se bobos e irreais, o que não é o caso aqui. Você se coloca por diversas vezes na pele de Hector, tamanha veracidade de como tudo se desenrola. Assim como em “Donnie Darko” e outros filmes do sub-gênero, algumas perguntas ficam sim, sem respostas, mas isto não impede que “Timecrimes” tenha um final suficientemente digno de posiciona-lo como um dos pequenos-grandes filmes do ano passado e elevar Nacho Vigalondo a condição de uma das grandes promessas do cinema espanhol.

Para baixar um DVDRip do filme com o áudio original em espanhol, clique aqui. Se precisar de legendas sincronizadas, clique aqui.

Ah, claro. Os EUA já compraram os direitos e um remake vem aí. Quem está cotado para estrelar?… Tom Cruise.

“Trick ‘r Treat” (ou: o filme mais esperado de 2006, 2007, 2008 e 2009)

“No Release Date Available”. Odeio ler estas quatro palavras.

Para quem não sabe, sou crítico, historiador, colecionador (2000 and counting!) e, principalmente, fã e entusiasta do cinema de horror. Não me refiro a filmes recentes feitos por grandes estúdios como Dimension, Universal e Lionsgate. Estou falando da história do gênero: do expressionismo alemão aos bons filmes de horror contemporâneos – eles existem – passando por díversos sub-gêneros do horror: giallo, slashers, splatters, zombies, exploitation e seus sub-gêneros, K-Horror, J-Horror, monster movies e por aí vai (você ainda está lendo?).

Os anos 2000, notórios pelos remakes norte-americanos de produções estrangeiras, também destacam-se pelas pequenas pérolas que surgem no gênero. Geralmente são filmes de baixo orçamento, que através de um bom roteiro, fotografia, atuações e direção, buscam chamar atenção de grandes distribuidoras em pequenos festivais de horror que acontecem por todo o mundo.

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NÃO é o caso de “Trick ‘r Treat”, produção de horror escrita e dirigida por Michael Dougherty – novato na direção, mas roteirista de “Superman Returns” e “X-Men 2″. Antes mesmo do filme ser exibido e sagrar-se vencedor do prêmio Audience Award do Screamfest Horror Film Festival 2008, realizado todos os anos em Los Angeles, tendo sua programação considerada uma das mais respeitadas de todos os festivais de cinema marginal pelo mundo, a Warner Bros. Pictures já havia comprado os direitos de exibição, divulgação e distribuição do longa de Dougherty.

Quando a Warner comprou os direitos de exibição? Em 2006! Entre no IMDB e você notará que ao lado do filme, o ano de produção consta como 2008. Porém, o filme está pronto desde 2006 e desde então, já teve datas de theatrical release confirmadas e canceladas quase meia dúzia de vezes. O último cancelamento foi no dia 11 de novembro do último ano e deste então, não há mais previsão de lançamento. (Clique aqui e veja um poster do filme com a data de 2007 e aqui um com a data de 2008).

Apesar deste movimento estranho da WB – que alguns julgam ser testes e mais testes de audiência – o filme vai se tornando famoso, sendo exibido em diversos festivais pelo mundo e living up to the hype, apesar de ainda ser inédito nos festivais brasileiros. Graças a um amigo americano, editor de um site de horror, tive acesso a esta pequena, mas graciosa obra. E depois de assisti-la, ficar indiferente sem compartilhar uma opinião, seria uma ofensa.

A cada dez filmes de horror realizados hoje em dia, nenhum se salva. Talvez, a cada 20 filmes de horror, um possa ter seu valor. O gênero é cada vez mais marginalizado em alguns países como o Brasil, mas nos EUA e na Europa, onde ainda tem muita força, coisas boas aparecem. Recentemente tivemos o espanhol “[REC]” como exemplo, os franceses “Ils”, “Frontière(s)”, “À l’intérieur”, “Martyrs” e os norte-americanos “All the Boys Love Mandy Lane”, “Automaton Transfusion”, “Repo! The Genetic Opera” e o sueco “Let the Right One In”, todos obras-primas e este último considerado por mim como o melhor filme de 2008 – um filme MUITO delicado sobre um garoto que se apaixona por uma menina vampira e vencedor de 18 prêmios – até aqui – pelo mundo.

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Sobre “Trick ‘r Treat”. Nos anos 1970, houve uma forte onda de filmes violentos, puxados principalmente por “O Massacre da Serra Elétrica”. Os anos 1980 foram diferentes: houve uma amenização do gênero. Os filmes violentos estavam lá – como a então recém estreada franquia “Sexta Feira 13″ -, mas os filmes que alcançaram maior notoriedade foram os chamados “monster movies”, que apesar do nome, não eram filmes violentos, mas muitas vezes filmes quase familiares sobre casas assustadoras, vizinhos estranhos e cidades macabras.

“Trick ‘r Treat” resgata um pouco deste feeling: apesar de ser um filme assustador e sufocante, sabe amenizar e contrapor cenas de susto com belas e longas sequências em torno da fictícia cidadezinha sem nome. O filme, estrelado por Anna Paquin, se passa na noite do dia 31 de outubro (Halloween) e conta a história de quatro grupos de pessoas, onde cada um deles vive uma situação apavorante, que posteriormente, se unem magistralmente no roteiro de Dougherty.

Aliás, o diretor parece ter criado um mundo próprio para si. Um mundo muito semelhante ao universo criado por Tim Burton em “O Estranho Mundo de Jack”. Eu, que vou cada vez menos ao cinema e assisto cada vez mais filmes em casa, lamento não ter tido a oportunidade de ver este filme em uma tela grande. Em geral, “Trick ‘r Treat” é divertidíssimo. Ao mesmo tempo em que assusta e cria um clima de tensão, é uma celebração ao espírito do Halloween, com dosagens de violência e alívio cômico na medida certa, medida exata para consagrá-lo como não apenas um dos grandes filmes de horror atuais, mas da década.

Assista ao trailer acima, liberte-se de alguns pudores e saiba reconhecer um bom filme, independente de seu gênero. Depois, coloque o nome dele na sua listinha de filmes à conferir. Quem sabe 2009 não é o ano em que “Trick ‘r Treat” verá luz do dia.

Eu insisto: ASSISTA ao trailer.

“Trick ‘r Treat” foi por muito tempo, o filme mais esperado do ano para mim. Não é mais. Já dando a dica, meu próximo alvo é o filme “Paranormal Activity”, que ganhou o prêmio Honorable Mention no Screamfest Horror Film Festival 2007. Clique aqui e veja o trailer perturbador. Dizem que o filme é tão perturbador quanto. Lógico que o filme também não tem nenhuma previsão de estréia nos cinemas norte-americanos – e, consequentemente, aparecer para download na Internet.


Editor


Pedro Beck é jornalista e crítico de TV.


Contato:
pedrobeck@gmail.com

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