40 anos de Star Trek*

Matéria originalmente publicada na revista Seriados de TV.

No dia 8 de setembro de 1966 a rede norte-americana de televisão NBC deu sinal verde para a tripulação da nave estelar USS Enterprise levantar vôo. 40 anos depois, a missão ainda ocorre.

O impacto cultural da marca “Star Trek” vai muito além das telas de cinema e televisão. Em 40 anos de história, Star Trek emprestou seu nome para 4 séries de TV, 11 longas-metragens no cinema, 46 videogames, 7 role playing games, 3 máquinas de fliperama, 10 jogos de tabuleiro e 1 jogo de cartas. Isso tudo sem falar no universo expandido e todos os produtos não-oficiais criados por fãs.

A Criação

No dia 8 de setembro de 1966 a NBC levava ao ar o programa que viria ser a série de maior culto de todos os tempos – é por aí, sem controvérsias. Jornada nas Estrelas, ou Star Trek no original. O termo refere-se a um universo de ficção científica criado por Gene Roddenberry, e é um dos nomes mais influentes do século XX no que diz respeito a entretenimento sci-fi.

startrek

Estrelada pelos memoráveis William Shatner (Kirk), Leonard Nimoy (Spock) e DeForest Kelley (Dr. McCoy), contava a história de uma tripulação representante da Federação dos Planetas Unidos (FPU) e suas aventuras onde nenhum homem jamais pisara. Em uma visão totalmente utópica do futuro – mais especificamente do século XXIII, e coloca totalmente nisso – os representantes da Federação encontravam-se em uma missão de cinco anos cujo objetivo era a exploração de novos mundos, formas de vida e civilizações.

Apesar de todo frisson que se causou em tono da estréia, seus níveis de audiência eram baixos e para o desespero dos fãs, houve uma ameaça de cancelamento no final do segundo ano. Depois de uma campanha de divulgação por parte dos trekkers, talvez ainda maior do que a NBC seria capaz de fazer – já que em nenhum momento conseguiu promover a série – uma terceira temporada foi encomendada. O programa passou a ser exibido às sextas-feiras, limbo em que até hoje nenhuma série com raras exceções – vide Arquivo X – consegue sobreviver. E então, novamente os índices de audiência foram insignificantes e no dia 3 de junho de 1969 foi decretado o fim de Star Trek.

Foi através das reprises, depois de sua curta vida, que a série alcançou seu apogeu. Por meio da divulgação boca-a-boca (o peer-to-peer atual) e do reconhecimento de sua originalidade por parte de outras emissoras que compraram os direitos de exibir reprises do programa, a série tornou-se um fenômeno. A repetição nesses canais só fez aumentar o número de fãs espalhados pelo mundo, afinal ela acabou sendo exibida em diversos países.

No Brasil, a série foi originalmente exibida pela extinta TV Excelsior no final da década de 1960 e posteriormente pela Rede Bandeirantes, sendo transmitida até os dias atuais, agora nas mãos do Universal Channel.

O Criador

O principal “culpado” pela criação das idéias e plots centrais de Star Trek foi um sujeito chamado Wesley Eugene Roddenberry, ou, Gene Roddenberry. Responsável pela produção, pelos roteiros e pela direção da série, o cara passou o começo da década de 1960, trancado em um quarto dando forma às suas idéias.

Com propostas talvez exageradamente inovadoras para a época, como um Primeiro Oficial mulher e um Oficial Cientista com orelhas pontudas e pele vermelha – originalmente proveniente de Marte – entraram em cena DC Fontana e Gene L. Coon, respectivamente sua secretária e um amigo próximo, que juntos de Roddenbery, criaram a USS Enterprise 1701 – também foi de Coon a concepção dos Kligons. Apesar de diversas opiniões positivas que enriqueceram o universo criado por Roddenberry, preferiu contrariar seus chegados e manter como Primeiro Oficial uma mulher, além de definir que a tripulação seria cinqüenta por cento feminina, outra atitude no mínimo ousada para a época.

O ano era 1964, e com um plot caprichado e todo um universo bem definido, era hora de vender seu peixe. E foi através do termo “western espacial” que Gene apresentava o piloto original – “The Cage” – para diversas emissoras televisivas, divulgando sua criação como uma versão futurista das histórias de bang-bang tão populares naqueles tempos.

Depois da recusa imediata da CBS que alegou procurar por um foco um pouco diferente, Roddenberry fez seu primeiro contato com a NBC que se recusou a produzir a série, alegando ser demasiada cerebral e ter pouca ação. Porém, confiantes no talento do criador e impressionados por sua originalidade, os executivos sugeriram que ele trabalhasse um pouco mais, revisse alguns conceitos e voltasse para apresentar um segundo episódio piloto. Um dia histórico. Nascia ali “Where No Man Has Gone Before”.

Spin-offs: As séries derivadas

Os spin off, ou séries derivadas, baseadas em outras séries já existentes, são mania hoje em dia. Tome Buffy e as franquias CSI e Law & Order como exemplo. Mas esta mania surgiu na verdade com a franquia de Roddenberry, que no acúmulo dos últimos 40 anos, é responsável por outras 4 séries de TV e uma animação dublada pelos mesmos atores da série original. São elas: The Animated Series, The Next Generation, Deep Space Nine, Voyager e Enterprise.

The Animated Series

A série animada surgiu em 1973. No formato convencional de séries infantis, exibiu um total de 22 episódios (divididos em duas temporadas). Apresentava como principal chamariz, as vozes originais dos mesmos atores da série de 1966.

Apesar do nome famoso que levava, a série decepcionou. Mesmo com toda a liberdade que a animação concedia para as grandiosas paisagens, a qualidade do desenho era de gosto muito duvidosa – e ainda estamos sendo gentis -, fato atribuído principalmente ao baixíssimo orçamento.

Vale ressaltar que os acontecimentos do desenho não faziam parte da cronologia oficial do universo Trek, algo que na época, causou muito reboliço.

The Next Generation

Datada 90 anos após as primeiras missões da Enterprise original, inovou ao apresentar ao lado de uma nova tripulação, uma nova nave estelar: a Enterprise-D. Esta primeira franquia não-animada estreou em 1987 com um episódio duplo de duas horas de duração. Ao longo de sete temporadas, teve uma audiência respeitosa e trouxe ainda mais adeptos para a mitologia criada por Roddenberry.

A série divergiu consideravelmente da idéia original. O mais interesse neste primeiro “filhote”, fator de maior credibilidade, foi a inserção de novos personagens na mitologia, como por exemplo, o Capitão Jean-Luc-Picard, e o andróide Data, que durante as temporadas persegue insaciavelmente o objetivo de se aperfeiçoar e se tornar “mais humano”.

TNG foi a série que obteve maior audiência de todas as séries da franquia e foi a única a ser nomeada para o Emmy, tendo concorrido em 1994, em sua última temporada, na categoria Melhor Série de Drama.

Deep Space Nine

Apesar do final de The Next Generation ter acontecido em 1994, antes disso, no ano de 1993, mais uma série do universo criado por Roddenberry estreava na TV. Foi a primeira e última vez que duas séries baseadas em Star Trek foram ao ar paralelamente. Deep Space Nine foi a primeira e única série situada em uma estação espacial ao invés de uma espaçonave.

Debutou em janeiro de 93 e narrava os acontecimentos sucedidos na estação espacial que da o nome a série. A mesma se localizava perto de um “buraco de verme” – espécie de túnel no espaço-tempo – que permitia uma viagem imediata para o distante Quadrante Gama da galáxia, um dos quatro quadrantes da via-láctea. Devido a extraordinária localização, a estação acabava se tornando um importante centro de comércio do espaço, vital para a exploração do infinito universo.

A série teve seu fim decretado no dia 2 de junho de 1999, depois de sete temporadas ou 176 episódios.

Voyager

Lendária por ser a única série da franquia que apresenta uma nave comandada por uma mulher, a capitã Kathryn Janeway, a série teve um início frenético no ano de 1995 mostrando em seu primeiro episódio os eventos que se sucederam depois que a nave USS Voyager é misteriosamente transportada para o Quadrante Delta, a setenta e cinco mil anos-luz da Terra.

Tendo seus eventos datados basicamente na mesma época de Deep Space Nine, a série inovou ao excluir vários fatores e raças que até então eram considerados fundamentais em todas as franquias da série. Apesar do susto inicial, a ousada iniciativa possibilitou a criação de novas raças e novas tramas na mitologia da franquia fazendo com que Voyager também tivesse uma vida de sete temporadas.

Enterprise

O diferencial de Enterprise está no fato de ser um prelúdio das restantes e não uma seqüência. As aventuras do episódio piloto acontecem dez anos antes da fundação da FPU, entre os eventos mostrados no filme Primeiro Contato, e a série original.

O prelúdio, que foi ao ar entre 2001 e 2005, mostrava a exploração do espaço por uma tripulação capaz de ir mais longe e rápido que qualquer ser humano anterior. A equipe era comandada pelo capitão Jonathan Archer, sujeito impulsivo que junto de seus comandados, tinham de enfrentar pela primeira vez espécies pra lá de conhecidas por nós como os Borgs e Kligons.

Outro fator marcante era que como prelúdio, mostrava os Vulcanos como uma espécie militarmente agressiva e conseqüentemente, os fatos que os levaram à postura quase monástica conhecida das séries anterior e descrita na série original.

A série teve uma vida de quatro temporadas (duas delas graças aos fãs) tendo até um bom e promissor começo, mas foi perdendo audiência ao longo dos anos e acabou cancelada em fevereiro de 2005.

Da TV para o cinema

Contando com o último longa-metragem dirigido por JJ Abrams, foram exibidos 11 longas no cinema baseados na franquia de Roddenberry.

Estes filmes podem ser divididos em três categorias: os baseados na série original (O Filme, A Ira de Khan, À Procura de Spock, A Volta Para Casa, A Fronteira Final e A Terra Desconhecida), os baseados em diferentes franquias da série (Generations) e os baseados exclusivamente em The Next Generation (Primeiro Contato, Insurreição e Nêmesis).

“Star Trek: O Filme” foi inicialmente criado para chegar aos lares norte-americanos e não aos cinemas, a idéia era de uma segunda série planejada para a primavera daquele 1978. O título da franquia que nunca existiu seria “Phase Two”, e a idéia central era mostrar a tripulação original da Enterprise em uma nova missão de cinco anos.

“Um modo de vida, uma filosofia, uma obsessão”

Acredita-se que a franquia Star Trek tenha sido responsável pela motivação da criação de diversas tecnologias como computadores mais avançados, o notebook e os celulares. Star Trek também se destaca por ter trazido a discussão sobre teletransporte à sociedade científica.

O sucesso e reconhecimento pelo lado cientifico é tão grande que as cinzas de Gene Roddenberry, falecido em 1991, foram enviadas ao espaço em 1997 no que se pode chamar de primeiro “vôo espacial funerário” realizado pelo homem.

*43 anos, na verdade.

3 Responses to “40 anos de Star Trek*”


  1. 2 Deh April 22, 2009 at 2:47 pm

    Star Trek é um dos poucos filmes desse gênero que eu gosto e assisto quantas vezes puder. Apesar disso, conhecia pouco da história, adorei o post!

  2. 3 Tawanna April 25, 2013 at 1:21 am

    Having read this I thought it was really enlightening.
    I appreciate you spending some time and effort to put this content together.

    I once again find myself spending a lot
    of time both reading and commenting. But so what,
    it was still worthwhile!


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Editor


Pedro Beck é jornalista e crítico de TV.


Contato:
pedrobeck@gmail.com

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