Archive for the 'música' Category

Felipe Ricotta

Conheci Felipe Ricotta em meados de 2005. Ainda residente do Rio de Janeiro, trabalhava em uma revista de música chamada Laboratório Pop, edita por Mario Marques, figurão do jornalismo musical, atual Jornal do Brasil. Eu sabia que tinha um tal de Ricotta na revista, mas não o conhecia pessoalmente.

Através de uma amiga em comum, a Dannie Cortez, no Bar que Nunca Fecha, ali do lado da São Clemente, em Botafogo, sentei pra beber quase cinco da manhã com a Dannie, umas amigas dela e dois caras que vira e mexe eu cruzava na noite do Rio. Conversa vai, conversa vem, descubro que o sujeito ao meu lado era o tal do Ricotta, e daí, desembestamos a conversar até o primeiro arredar.

Pouco tempo depois, sem mais nem menos, me mudei para São Paulo, sem saber muito bem o motivo. O que eu sei é que cerca de um ano depois, cruzei com o Ricotta no messenger e ele veio me falar que estava se mudando para São Paulo. Que viria trabalhar na MTV. Outro ano se passou e resolvi entrevista-lo.

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Pedro Beck: Como você chegou na MTV?

Felipe Ricotta: Eu cheguei na MTV porque eu mandei um e-mail pra lá dizendo que eu tava indo pra São Paulo mudar o mundo.

PB: E aí eles te chamaram pra conversar?

FR: Daí eu tinha uma idéia de programa, eles me ofereceram uma vaga pra trabalhar na produção e eu topei.

PB: Eu lembro que te perguntei uma vez, quando você tava indo pra lá (MTV), se você era formado em jornalismo. Você lembra o que você me respondeu?

FR: Não…

PB: Que era formado em mulher e maconha. Com quase dois anos de MTV, continua só em mulher e maconha ou você tá curtindo essa área e pensa em trampar só com isso no futuro?

FR: Cara, agora eu saí fora da casa. To abrindo a Ricotta Produções ano que vem e to rodando por aí divulgando minhas músicas.

PB: Ricotta Produções? Qual vai ser?

FR: Cara, a gente vai fazer clipes e gravar outras bandas. Vai ter um estúdio de ensaio, vão rolar umas festas, enfim, fazer de tudo um pouco.

PB: E a tua banda? Tem mesmo seu nome? Que porra é essa?

FR: Então, eu to com uma banda no Rio e outra em SP.

PB: Fala, aí…

FR: Esse mês faço três shows aqui no Rio com a banda daqui (14/11 18/11 e 24/11) e dia 25/11 faço em São José dos Campos com a banda de lá que são três malucos de fortaleza


Felipe Ricotta – “Eu Não Consigo Ser Tão Teu”

PB: E tua banda antiga, o “Carol Azevedo Morreu”? Que nome é esse? É recalce de corno? Sempre achei esse nome sensacional.

FR: Porra, Beck, o nome da banda era só “Carol Azevedo”.

PB: Eu inventei o “morreu”?

FR: Mas ela nunca andou… eu tenho um material que nunca foi gravado, mais de 20 músicas. Pretendo gravar um dia. O “morreu” é só o e-mail da banda.

PB: Por falar em material que nunca foi gravado de verdade, lembra da session Mario Marques Blues que gravamos com o Daniel? Caralho, aquilo foi sensacional.

FR: Precisamos depois entrar em estúdio e gravar algo, cara. ‘Pedro Beck e os Irmãos Brothers’.

PB: Boa! Tipo ‘Nashville Sessions’ do Dylan com o Cash. Já ouviu? É sensacional e tinha muito improviso alí.

FR: O improviso é a parada.

PB: Como você define o som de suas bandas?

FR: Com a do Rio, a gente toca as músicas do primeiro disco. Com a de SP, a gente muda os arranjos das antigas e toca as novas do segundo disco

PB: Você bebe em que outras bandas pra compor?

FR: De onde eu bebo? Po, meu som é bem diferente das minhas bandas preferidas, então sei lá, eu bebo de mim mesmo e de quem tá tocando comigo

PB: Não é pretensioso falar que não de bebe de nenhuma banda que curte?

FR: Acho que não, cara. Porque as influências para compor não vem só de bandas. Por exemplo, eu sou fã pra caralho de Ryan Adams, Ben Folds, Superdrag, Lemonheads… e eu não consigo encontrar muito deles ali na minha obra. Na verdade, eu dialogo muito com eles, é como se fosse uma competição saudável: “Porra, olha só essa música que esse filho da puta fez, que foda. Vou seguir por um caminho totalmente diferente.” Uma vez eu tava pensando em um arranjo para uma musica nova e semanas depois saiu um disco do Ryan Adams em que ele tinha feito exatamente o que eu tinha imaginado em fazer! Daí eu desisti da idéia. E tem uma música nova do Ben Folds que no refrão ele canta exatamente o que eu canto em “Afronta”, só que inglês. São as coincidências cósmicas.


Felipe Ricotta – “Três Meses”

PB: E São Paulo? O que tá achando? Outro carioca que veio pra ficar? Acho essa cidade muito louca, cara.

FR: Cara, agora eu to feliz de morar em São Paulo porque estou podendo sair da cidade com mais frequência. Mas eu amo.

PB: Porra, quando eu vou para o Rio eu fico em depressão: parece que aquela merda parou no tempo, não? Tipo Cuba. Ou Santos.

FR: Porra, cara. Sei lá. Ontem era segunda-feira, passei na porta do Empório e tinha um movimento. Tinha uns bandas novas tocando na Melt… eu estou na onda riponga. Tá tudo bem em qualquer lugar e todo mundo é muito legal o tempo todo.

PB: Então você acha que a noite do Rio é boa sim, ao contrário do que falam?

FR: O rock tá ressurgindo no Rio de forma violenta.

PB: Onde? Eu não vejo isso.

FR: A Tijuca é a nova Seattle… Foda-se. Agora eu já falei.

PB: O grunge ta voltando?

FR: O que vai rolar agora é uma mistura de grunge com hippie.

PB: Você tá me dizendo que um novo movimento musical ta surgindo e ele começa… na Tijuca?

FR: Vai ser a resposta do orgânico para a invasão eletrônica. É, cara. As pessoas vão se rebelar contra os computadores e os celulares.

PB: E essa onda electro que São Paulo não consegue parar de respirar? Aliás, Sao Paulo tem vida própria ou bebe mais do que devia do exterior?

FR: Essa onda electro tá enchendo o saco já. Não vai durar porque é baseada em bala e pó, e não em maconha. Então o público não dura muito. Ninguém aguenta muita química na cabeça por muito tempo. Daí quando bate a deprê, as pessoas se voltam pra música feita para o coração e não para o corpo.

PB: Mas e aí, você falou pra MTV que ia mudar o mundo. Está mudando?

FR: Se eu estou mudando o mundo? Pra caralho!

PB: Pra terminar… quem manda mais? Cash, Dylan ou who cares?

FR: Quem manda mais? Gram Parsons, porra!

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Laura Taylor

Antes da entrevista, a maior preocupação de Laura era com as respostas: “Meu português é meio zoado, morei muito tempo fora, você corrige se eu falar algo errado?”.

“Relaxa, não se preocupa”, respondi.

Laura Taylor, apesar de mineira, morou boa parte de sua vida na Nova Zelândia. Após surgir na noite como integrante do coletivo de DJs Killer Shoes, resolveu tentar a sorte na seletiva em que o Bonde do Rolê organizou em parceria com a MTV na busca de uma nova front woman que substituisse Marina Vello. Se deu bem: ao lado de Ana Bernardino, Taylor é a nova vocalista do grupo.

Conversei com Laura poucas horas antes de ela embarcar para Portugal, onde foi ao encontro dos outros integrantes da banda. Em um papo descontraido, rápido, mas divertidíssimo, Laura fala sobre suas expectativas, sonhos, Rodrigo Gorky, Pedro D’Eyrot, Ana Bernardino, Killer Shoes, a distância da família e dos amigos, entre outros assuntos.

Da onde veio a vontade de ser vocalista do Bonde?

LAURA TAYLOR: Eu sou performatica, né, meu bem. Ser só DJ não estava me satisfazendo. Uma cabine é pouco, eu quero palco.

Você se considerava fã da banda antes da seletiva?

LT: Sim, fazia parte do set das Killers [Shoes].

O que achou da Ana ter entrado na parada? Se você se inscreveu no concurso é porque queria ser a frontwoman. Como é ser uma das?

LT: Eu acho lindo, Ebony and Ivory [referência a Paul McCartney]. Os meninos não poderiam ter escolhido melhor. Eu não sei como será, estou morrendo de medo, sonhando muito, muita coisa bizarra. Ontem sonhei que fazia a minha mala.

O sonho que durou a noite inteira e foi uma mala muito bem feita! Eu dobrei tudo, escolhi cada roupa, arrumei a necessaire, passei o que tinha que passar, peguei as roupas do varal, organizei minha pasta de documentos… fiz tudo! Acordei exausta e com nada arrumado. [risos] É muita ansiedade para uma pessoa só!

Você tem mantido contato com o Gorky e o Pedro? Vocês já se conhecem bem?

LT: Estamos construindo uma amizade muito bonita e especial. [risos]

Qual a sua maior referência musical? [Nesta hora, peço para ela falar o primeiro nome que vier em mente, Laura não só responde como indica o vídeo abaixo]

LT: O B-52’s!

Como espera que fique sua vida agora? Está preparada para mil viagens, ficar longe da família e dos amigos?

LT: Mil viagens, sim! Ficar longe da família e amigos, mais ou menos… O cansaço, no way! [de jeito nenhum].

Quando o CSS surgiu eles diziam que criaram a banda para beber de graça nas festas. Com o tempo, se tornou algo sério. É com este pensamento, se divertir, que você encara essa nova etapa da sua vida, ou você almeja isto como um trampolim para, de repente, algo ainda maior? Exagero ou não, é a hora e vez de Laura Taylor, não?

LT: Eu estou aqui para beber de graça nas festas! [risos] Mentira. No dia em que eu ganhei, liguei para meu pai e gritei: “Pai! Ganhei! Vou ficar famosa”, e ele respondeu: “Não meu bem, famosa você vai ser quando casar com a Madonna”. Então isto aqui é um trampolim para casar com a Madonna, to make daddy proud! [para deixar meu pai orgulhoso].

E a Pequeña Laura Taylor? Vai fazer participação no Bonde?

LT: Claro! Onde tem whisky, tem La Pequeña.

O Killer Shoes morreu com a sua saida?

LT: Não, nunca. O Killer Shoes não é só discotecagem, é um estilo de vida!

Quem manda mais? Cash, Dylan ou quem se importa?

LT: Não tem como comparar.

Me da uma exclusiva quando você for o highlight do Coachella e Glastonbury? Junto com as passagens?

LT: Te dou demais, filho!

Por fim, mas não menos importante: Já está preparada para ser odiada pelo povinho recalcado do Brasil?

LT: To demais, filho!

Crédito das fotos: Bárbara Dutra

Hercules & Love Affair

Antes de entrar no assunto H&LA, eis um nome a ser aprofundado: DFA Records.

DFA Records

Fundada em 2001, a DFA Records é hoje, ramificação da EMI em música eletrônica. O selo é braço independente da major e possui contrato de exclusividade na produção e distribuição de seus artistas.

Criada por Tim Goldsworthy (produtor do Cut Copy), James Murphy (do LCD Soundsystem) e Jonathan Galkin, a DFA é casa de diversos nomes do eletrônico como The Rapture, Black Dice, Hot Chip e o próprio LCD Soundsystem, entre outros.

Nas rédeas da produção o selo vai além: para ficar apenas em alguns nomes, produziu e remixou desde 2001, artistas como Le Tigre, NIN e Chemical Brothers, além dos já citados Hot Chip e LCD. No subgênero dance-punk a DFA é sem dúvida propriedade no assunto: seu catálogo de bandas deixa isto evidente, pois a grande maioria bebe da cena underground nova-iorquina do final da década de 1970 (estamos falando do groove de bandas como Talking Heads, Blondie e Liquid Liquid). A grande diferença destas bandas de ontem para as de hoje é a sonoridade mais suja, barulhenta, às vezes até mais pesada.

Hercules & Love Affair

Outra banda que desde 2007 tomou a DFA como lar é o Hercules & Love Affair. Há quem chame de banda de um cara só (Andy Butler, DJ e produtor que dispensa comentários), há quem chame de duo (Butler + Antony Hegarty, que empresta sua voz em cinco faixas). Porém, o H&LA também pode ser considerado um coletivo (formado também por Kim Ann e Nomi) vindo de Nova York com capacidade e energia suficiente para despertar a cidade mais populosa dos EUA do marasmo musical que se enfiou nos últimos anos.

Seu auto-intitulado álbum é como um soco no estômago: curto e direto. O primeiro single, “Blind”, é sucesso no mundo todo desde 2007 e já deixou Frankie Knuckles de queixo caído – o DJ norte-americano, um dos grandes precursores da house-music, fez um remix imperdível da faixa.

Independente do revival da dance music, do talento de cada um dos colaboradores do CD, das críticas quase que unanimemente positivas, da profundidade das letras, outro fator que impressiona no álbum de estréia é a capacidade de faixas como “Hercules’ Theme”, “You Belong”, “Athene”, “Blind” e “This Is My Love”, entre outras, serem extremamente versáteis: o disco em sua maioria consegue ser arrasador, independente se é tocado em um set list onde um DJ traz uma pista de dança abaixo, ou em um volume baixo, como música ambiente acompanhado de qualquer outro afazer.

Até quando não manda tão bem, o álbum se destaca, como em “Iris”, faixa mais melosa dentre as dez inclusas no trabalho de estréia, cheia de sintetizadores e um vocal quase que bucólico na voz de Kim Ann.

O grande nocaute do projeto de Butler é a capacidade da banda em ir além da “disco”. Hora soam como space-disco, ora neo-disco e ora house, sempre invocando o melhor dos gêneros com vocais cheios de loops. O groove da banda é completo, bem executado e somado a devastadora voz de Antony Hegarty – ele mesmo, o Antony do Antony and the Johnsons – faz do quarteto uma rara exceção à regra, ficando a house music como o novo “huge comeback” musical.

O álbum de estréia foi lançado no dia 10 de março de 2008 (o single “Blind” uma semana antes) e a partir de maio a banda se prepara para sair em turnê por toda a Europa, participando de diversos festivais musicais como o Sónar Festival, que acontece todos os anos em Barcelona, Espanha, onde se apresentarão ao lado de nomes como Yelle, M.I.A., Frankie Knuckles, Goldfrapp e Justice, entre outros.

Não entremos naquela velha discussão se a banda em questão veio para salvar seu gênero. Sabe aquela famosa frase que diz “na dúvida, fique com o original”? Se tratando de H&LA, digo com segurança: desta vez, fique com o hype.

O que realmente importa e torna o trabalho de estréia dos caras, até aqui, como o melhor do ano: é de longe, o álbum mais original e promissor feito por um coletivo norte-americano em muitos anos.

(Para quem estiver a fim de curtir ao vivo um DJ set de Andy Butler, o produtor toca nos dias 18 e 19 de abril no Rio (69) e em SP (Vegas), respectivamente).

She & Him

A investida de atrizes na carreira de cantora pode causar sentimentos diversos. No século XX as lembranças são incríveis: Doris Day, Olivia Newton John, Ann Margaret (atriz-cantora, cantora-atriz), entre outras. Dos anos 2000 para cá as referências são no mínimo controversas: Paris Hilton, Hilary Duff, Lindsay Lohan, Scarlett Johansson e porque não Juliette Lewis que compensa seu talento musical limitado com um verdadeiro freak show em cima do palco.

A investida em uma carreira paralela que não a que consagrou uma “estrela” é vista com muita desconfiança pela crítica. Sorte – e talento – melhor teve Zooey Deschanel (Quase Famosos), que ao lado do músico de country-folk M. Ward começa chamar atenção com a banda She & Him, formada após cantarem uma música – “When I Get to the Border” (que não está na trilha), de Richard & Linda Thompson – no filme The Go-Getter, ainda inédito no Brasil.

Enquanto Deschanel alcançava o estrelato nas telas com o “Guia do Mochileiro das Galáxias” após ótimas atuações em filmes independentes, Ward não ficou para trás e despontou no meio musical ao co-produzir álbuns para Neko Case, Chan Marshall (Cat Power), Conor Oberst (Bright Eyes), Jim James (Morning Jacket), Nels Cline (Wilco) e Jenny Lewis (Rilo Kiley), além de fazer parte do grupo canadense Broken Social Scene.

Com uma sonoridade que remete ao country pop (ou folk-pop, que muito se assemelham ao soft-rock) dos anos 1970 o She & Him lançou recentemente seu primeiro álbum, intitulado “Volume One”. Dentre as 11 faixas, a voz de Zooey Deschanel entoa três covers: “Was Made For You” de Ronnie Spector, “I Should Have Known Better” dos Beatles e “You Really Got a Hold On Me”, que apesar de atribuída a John Lennon é de autoria do The Miracles, banda americana de R&B que fez certo sucesso nos anos 1960.

As oito faixas restantes foram escritas pela “she” que dá nome à banda e é em “Why Do You Let Me Stay Here” que o duo alcançou o sucesso e reconhecimento de fãs e críticas sendo uma das principais atrações do South by Southwest 2008, festival de música (e filmes) que religiosamente acontece todos os anos no mês de março na cidade de Austin, no Texas.

Enquanto Zooey, que quando pequena cantava em um coral, toca piano e banjo, Ward acumula três funções: a de back vocal, guitarrista e produtor do álbum. A voz de Deschanel é daquelas arrebatadoramente tristes que somada às letras românticas composta pela (ex?) atriz, muito se assemelham à fase Isobel Campbell do Belle & Sebastian.

Diferente da carreira como atriz, onde suas atuações eram muito destacadas, Deschanel aqui não tenta ser uma celebridade, muito menos chamar atenção por qualquer outra coisa que não seja sua doce voz, o que é inteligente, pois como uma menina apaixonada com seu melhor vestido, cantando diante de seu grande amor, ela não só encanta como convence.

The Ting Tings

A imprensa britânica pode ser dividida em duas: a imprensa britânica e imprensa britânica que escreve sobre música. Sobre a primeira, apesar de um pouco sensacionalista, faz o bê-á-bá do jornalismo como manda o figurino. Já a segunda, é digna de um aprofundamento.

Adjetivos controversos como sensacionalista e “pró-hype” parecem ser requisitos básicos para escrever sobre música na terra da rainha. Todas as semanas os jornalistas musicais elegem uma nova banda, um novo cantor ou uma nova cantora a “salvador da pátria”: aquele ou aquela que veio para nos libertar do marasmo, do limbo, do buraco negro em que se meteu o rock’n’roll. Citando o Titãs, resume-se: o que se busca todos os dias é “a melhor banda de todos os tempos da última semana”.

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A nova coqueluche da cena pop inglesa não tem sequer um álbum lançado. Mas quem precisa de um quando meninas de 15 anos surgem para o mundo jogando meia dúzia de canções no MySpace? A banda The Ting Tings certamente não. Com apenas quatro canções o duo formado por Jules De Martino e Katie White apareceu para o mundo, para as pistas e para a mídia em 2006 após encerrar suas atividades na finada Dear Eskiimo – banda que fez relativo sucesso no underground inglês por alguns anos, mas nunca conseguiu por a cabeça fora d’água – e criar o TTT.

Estamos falando de um duo que só toca guitarra e bateria, o sobrenome da front woman é White, mas o Ting Tings não é o novo White Stripes. Nem soa como. O desempenho de Katie White no palco é um misto entre a loucura de Betty Ditto e voracidade da natureza enfurecida com New Orleans. Se as letras são consideradas simplórias, melosas, a sonoridade é literalmente um caso de “leve três e pague dois”: diferente de Jack e Meg, o Ting Tings não faz um rock cru e tem o auxílio de software de mixagem com diversos loops e sintetizadores.

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Com a fama repentina veio o convite para participar do Glastonbury Festivals 2007, hoje o maior e mais importante festival de rock do mundo que acontece todos os anos – geralmente no mês de junho. E foi no palco “Introducing Stage” que a banda se consagrou, tornando popular seu segundo single: “Great DJ”, depois de ter um desempenho apenas razoável com a primeira música de trabalho: “That’s Not My Name”.

Passados alguns meses o Ting Tings possui diversos shows agendados por toda a Europa, um álbum (“We Started Nothing”) prontinho para sair do forno em maio, críticas positivas, críticos entusiastas em boa parte do mundo e memorável desempenho no SXSW Music Festival.

O single “Great DJ” já recebeu um remix de peso assinado pelo gênio mundial dos remixes, Calvin Harris, e Huw Stephens , DJ da Radio One, mais famosa rádio de rock do mundo, já profetizou: “o Ting Tings será a banda principal nos maiores festivais dos próximos anos.”

À conferir.

Será que alguém aí ainda lembra e precisa de Franz Ferdinand?

Guillemots e os trens para o Brazil

It’s 1 o’clock on a Friday morning
I’m trying to keep my back from wall
(…)
And to those of you who moan your lives through one day to the next
Well, let them take you next
Can’t you live and be thankful you’re here?
See it could be you tomorrow, next year

Londres, 22 de julho de 2005

Hoje é sexta-feira. Um rapaz de 27 anos, provido de aparência semita, caminha em passos largos rumo a estação de metrô de Stockwell. Nascido em Gonzaga, minúsculo município do estado de Minas Gerais, o imigrante brasileiro rumou à terra gringa apenas três anos antes do dia de sua morte: 22 de julho de 2005.

No país de um outro Charles, não deram tempo para Jean Charles de Menezes atender a um chamado e consertar um alarme de incêndio quebrado em Kilburn, motivo de tamanha pressa naquela fatídica manhã rumo ao trem subterrâneo.

 

 

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Após oito longas balas de ponta oca, também atendendo pelo nome de dundum, daquelas que estilhaçam dentro do corpo, armamento proibido desde a Convenção de Haia em 1899, Jean Charles, primo de Alex Pereira, deixa de ser mais um desconhecido talvez ultrapassando a popularidade de seu xará, filho de Elizabeth II.

 

 

Londres, 2004. Algum dos 30 dias de novembro

 

Em algum lugar, ano antes, na mesma cidade, Fyfe Dangerfield finalmente acerta: após quase meia dúzia de bandas formadas, projetos experimentais, salta, enfim, rumo ao estrelato ao lado da moça Aristazabal Hawkes e dos rapazes Greig Stewart e MC Lord Magrão – brasileiro, que apesar do MC é guitarrista. É formada a banda Guillemots.

 

Londres, 10 de julho de 2006

 

 

Quase um ano se passou e o “santuário” em frente à estação de metrô de Stockwell continua sendo diariamente freqüentado por aqueles que no baú de suas lembranças lembram da história de um brasileiro assassinado pela Scotland Yard. O Guillemots saiu do anonimato para o sucesso sendo aclamado e reconhecido por fãs e críticos musicais.

 

 

 

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Quem também não conseguiu esquecer a tragédia que abalou as relações entre Brasil e Inglaterra foi Dangerfield. O álbum “Through the Windowpane”, primeiro da banda, é lançado e logo chega ao topo das paradas musicais. Das 11 faixas do disco, uma delas, a terceira, chama atenção.

 

 

“Trains to Brazil”, escrita em 2002 pelo vocalista, pode ser considerada um comentário social ao abordar as precárias condições de vida no mundo contemporâneo e a suspeita e desconfiança que espreita a sociedade após o 11 de setembro de 2001. Dangerfield crítica aqueles que passam a vida reclamando, pois acredita que devemos agradecer por apenas estar vivos, e quase como um decreto, encerra: “Você pode ser o próximo / Amanhã / Ano que vem.”

 

 

 

 

Mas não apenas pelo engajamento político que a música chama a atenção. Mais importante, é que no processo de gravação do álbum, a canção possuía outro nome e seu título foi alterado as pressas para “Trains to Brazil” em homenagem a Jean Charles Menezes.

 

 

“Through the Windowpane” também possui outras duas referências ao Brasil. A sétima faixa, “If The World Ends”, cujo o refrão é “If the world ends / I hope you’re here with me / I think we could laugh just enough / To not die in pain / If the world ends / It won’t finish you / You’re not the type they can capture / You flit like a fly catcher / They can’t pin you down / Can’t pin you down” termina com a voz de uma criança, provavelmente brasileira com a seguinte mensagem em português: “Mas o mundo não acabou. Ainda. De qualquer forma”. A segunda referência é o nome da última faixa do álbum: “São Paulo”.

 

 

Brasil, 17 de março de 2008

 

 

O Guillemots se prepara para lançar seu segundo álbum, intitulado “Red”, no dia 24 de março. No último dia 17 do mesmo mês, o single “Get Over It” foi disponibilizado no MySpace da banda e logo vazou para toda a Internet.

 

 

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Além do single, fazem parte de “Red” as seguintes canções: “Kriss Kross”, “Big Dog”, “Falling Out Of Reach”, “Clarion”, “Last Kiss”, “Cockateels”, “Words”, “Standing On The Last Star”, “Don’t Look Down” e “Take Me Home”.

 

O quarteto parte em maio para sua nova turnê e assim como em sua primeira excursão pelo mundo, nenhuma data no Brasil ou na América Latina parece estar inclusa.


Editor


Pedro Beck é jornalista e crítico de TV.


Contato:
pedrobeck@gmail.com

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