Posts Tagged 'séries de tv'

Tell Me You Love Me

Matéria originalmente publicada no site Séries Etc.

O laço mais complexo que pode existir entre dois seres humanos é o relacionamento amoroso, afetivo – dividido com o eco em torno de quatro paredes. Os seres humanos são por si só cercados de tabus, paradigmas, anseios, receios e insegurança. Quem não ama ouvir que é amado? Melhor: quem não ama se sentir amado?

Partindo desta premissa – e a de que todo mundo é fodido por natureza – a HBO Brasil lança no dia 8 de junho, sem muito alarde, a série “Tell Me You Love Me”, que conta o dia a dia de quatro casais: o de 20 e poucos anos, o de 30 e poucos anos, o de 40 e poucos anos e, dando um salto maior, o casal de 70 e poucos anos.

Parando aí, a série já seria fantástica, pois aborda os grandes dilemas de cada faixa etária (chegaremos aos dilemas), mas ela vai além. Aproveita-se por estar em um canal a cabo (nos EUA também é da HBO) para virar quase um soft-porn europeu. Você aí de 20 e poucos anos, transa, não? De 30 também, certo? Então, na série não teria porque o sexo não fazer parte da vida de um casal. Em Diz Que Me Ama – título nacional – não há espaço para falso moralismo. Como disse Rodrigo Garcia, um dos diretores da série, mente por trás da também excelente “In Treatment”: “Esse negócio de que mulher se cobre com o lençol até o pescoço depois do sexo não existe”.

Série é criticada por mostrar demais

Em uma coletiva de imprensa, a primeira pergunta que Cynthia Mort, criadora da série, foi obrigada a responder, foi a seguinte: “E aí, Cynthia, é tudo verdade como parece?”.

As cenas de sexo em “TMYLM” são de um realismo assustador. Apesar de negar veemente que seriam de fato, reais, Mort e sua cria foram – e estão sendo – severamente criticados – aqui, negativamente – pelo uso em excesso de sexo e, principalmente, nudismo frontal.

Talvez o que mais perturbe são as cenas que parecem ser protagonizadas por mim ou por você, pois são simplórias ao extremo: masturbação, sexo oral, aquela briga em um domingo ocioso que logo se transforma em uma inesperada rapidinha no sofá. O maior motivo das críticas ao programa não é apenas a sua simplicidade ao abordar e desconstruir relacionamentos e sexo, mas seu realismo: Tell Me descarta qualquer “glamouralização” hollywoodiana, mega produção ou maquiagem para esconder mamilos, pênis, enfim, ângulos pouco convencionais das genitálias do sexo masculino e feminino.

Os casais

Michelle Borth e Luke Farrell Kirby interpretam Jamie e Hugo, respectivamente, casal de 20 e poucos anos dividido por atos impulsivos ligados a qualquer jovem e a vontade de oficializarem sua longa relação trocando alianças. Em determinado momento do episódio piloto, os dois conversam:

JAMIE: Você flerta e eu odeio!
HUGO: Eu preciso estar apaixonado por alguém que confie em mim.
JAMIE: Você deveria estar. Só não acho que esta pessoa seja eu.

Porém, como qualquer jovem casal, pecam pela falta de segurança e maturidade em seu relacionamento. Hugo flerta com outras mulheres e Jamie não só sabe como detesta. Quando ela suplica ao cara por uma maior segurança, mais gestos de afeto – como quando ela pede para ele dizer que a ama e que nunca a irá trair -, ele responde o que todas as mulheres nunca desejariam ouvir:

HUGO: Não posso dizer isso. Não sabemos como será o amanhã, Jamie. Você realmente acha que serei o último cara para quem você vai dar na vida?

E o relacionamento começa, vagarosamente, a desmoronar. Alguns episódios depois, Jamie vai à procura de terapia e acaba no escritório da Dra. May Foster.

Sonya Walger (a Penny de Lost) e Adam Scott interpretam Carolyn e Palek, respectivamente, casal de 30 e poucos anos que tem um casamento estável, porém desequilibrado emocionalmente pela incapacidade de conseguirem ter um bebê. Ambos são saudáveis e sadios, os espermatozóides de Palek são “vencedores”, segundo seu médico, mas o casal já tenta a mais de um ano ter um filho, em vão.

Os dois protagonizam as maiores cenas de sexo explícito do programa, afinal, buscam incessantemente, um terceiro membro para a família – e o sexo em busca de um bebê não é o sexo apaixonado que um casal jovem faz quando volta pra casa, é uma transa rápida, fria, sem emoção: quase um estupro. Não. É um estupro. Com a frustração pelo insucesso, os dois acabam procurando uma terapia de casal com a Dra. May Foster.

O terceiro casal é formado pelos atores Ally Walker e Tim DeKay, que interpretam Katie e Dave, respectivamente. Os dois formam provavelmente, o casal mais fucked up do seriado. Katie entrou nos 40, é sozinha, tem um casal de filhos para cuidar e poucas amigas. Dave, é distante, parece ter repulsa por Katie e os dois, casados há 15 anos, não transam a mais de um ano – o que não impede Dave de, vira e mexe, se masturbar na cama.

Katie, mais insatisfeita que Dave, tenta reverter a situação – sem muito sucesso -, e ela acaba no consultório da Dra. May Foster, mas Dave se recusa a participar do que seria uma terapia de casal.

O último casal é representado pelos atores Jane Alexander e David Selby. Alexander interpreta justamente a Dra. May Foster, cuja presença na tela torna o seriado ainda mais sofisticado, pois após abordar casais problemáticos em crises de fidelidade, gravidez e sexo com seus cônjuges, o show oferece os anseios da psicóloga e seu casamento de 43 anos de duração.

Por ela e seu marido fazerem parte da chamada terceira idade, a TV convencional – não falo da TV aberta, mas outros canais a cabo – provavelmente nos pouparia de cenas de sexo envolvendo os dois. No duro? Por quê? Certo que idosos de 70 e poucos anos de não fazem tanto sexo assim, mas May e seu marido Arthur transam que nem coelhinhos: o terceiro episódio da série se encerra com os dois fazendo sexo e May sussurrando ao ouvindo de Arthur:

MAY: Me come! Me fode! Entra dentro de mim.

A série não só é excepcional em seu visual e realismo, mas em sua concepção de que todos os casais de diferentes faixas etárias são iguais: as mulheres de 20 e poucos têm medo de infidelidade, as de 30 de não conseguirem constituir uma família e as de 40 de viverem sozinhas, sem sexo. Os homens de 20 e poucos anos têm dificuldade em se manter em um único relacionamento, os de 30 em acompanharem persistentemente o desejo de sua mulher em ter um filho e os de 40 em manterem o desejo e prazer de fazer amor com sua parceira.

É uma generalização, que verdadeira ou não, dá certo e transforma Tell Me You Love Me na melhor estréia da temporada passada de seriados norte-americanos.

Tell Me You Love Me
Aos domingos, às 22h00
Demanda: 10 episódios
Canal: HBO Brasil
http://www.hbo-br.tv/

Advertisements

In Treatment

Lembro que em uma das vezes que sentei na cadeira defronte ao meu psicólogo, quando ainda não estava acostumado com toda aquela situação paciente-médico, imaginei se não haveria uma câmera escondida em meio a livros. Câmera que posteriormente serviria para arquivar cada palavra que eu esboçasse pronunciar naquele escritório.

Os anos se passaram e levaram com eles aquela idéia de desconfiança. Terapia, análise ou como queira chamar, tornou-se parte fundamental de minha formação como pessoa, independente do tipo de pessoa que me formou.

A idéia de vigiar ou ser vigiado sempre me intrigou. Talvez eu tenha assistido Arquivo X demais. Talvez alguns traumas perdurem por toda nossa vida. Talvez vigiar, espiar (sic Bial), xeretar a vida alheia seja dos maiores prazeres que o ser humano possa ter. Eu sei que eu gosto. Confesso até me identificar com o Peeping Tom do famigerado Michael Powell.

Não é todo dia que se vê seriado bom todo dia

Agora posso culpar a HBO por agravar ainda mais esta minha necessidade de observar. Estreou em janeiro nos EUA, em meio ao caos da recém encerrada greve dos roteiristas, In Treatment, série baseada no programa israelense de mesmo nome (Be’Tipul) criado por Hagai Levi.

Produzido, desenvolvido, escrito e dirigido por Rodrigo Garcia (diretor de obras-primas televisivas como Tell Me You Love Me, Amor Imenso, A Sete Pamos e Família Soprano), o programa já seria revolucionário o suficiente se só e simplesmente abordasse as consultas do Dr. Paul Weston e seus pacientes, mas Em Terapia não só o faz como o faz diariamente.

Estrelado por Gabriel Byrne e pela esplêndida duas vezes vencedora do Oscar Dianne Wiest (Hannah e Suas Irmãs, de 1987 e Tiros na Broadway, de 1995), entre outros, a nova atração da HBO norte-americana foi ao ar five days a week na TV estadunidense e será exibida no mesmo formato no Brasil. Por nove semanas, 43 episódios com meia hora de duração serão exibidos de segunda à sexta. Um colosso, não?

Como funciona

Às segundas-feiras, o Dr. Paul Weston trata de Laura (Melissa George), uma jovem e atrativa médica que se consulta com Paul há cerca de um ano. Laura vive uma crise em seu relacionamento e vive um dilema: terminar de vez ou casar com seu namorado Andrew. Mas este dilema parece ser reduzido a nada quando Laura revela a Paul que está apaixonada por ele desde a primeira vez que o viu.

Às terças-feiras, é a vez de Alex (Blair Underwood), um arrogante piloto de caça da marinha que exige usufruir sempre apenas do melhor disponível. Alex é um novo paciente e exige que Paul mantenha com ele a fama de “melhor psicólogo da cidade”. O que leva o piloto ao consultório é o fato de ter explodido uma pequena escola iraquiana e ter matado 16 crianças que nela estudavam.

Às quartas-feiras quem vai ao consultório é Sophie (Mia Wasikowska), uma precoce ginasta e adolescente que tem como meta atingir o índice olímpico. Sua vida desmorona após ser o pivô de um grave acidente. Ela então é encaminhada ao psicólogo para que seja determinado se a menina tem ou não tendências suicidas, já que aquele não foi o único grave acidente em que esteve envolvida.

Às quintas-feiras Paul trata de um casal: Jake (Josh Charles) e Amy (Embeth Davidtz). Este é o dia que não conseguiu me fisgar ainda. Enquanto Jake é um músico sem sucesso, Amy é uma executiva premiada com uma bela carreira a conta bancária. Após passarem cinco anos tentando engravidar, finalmente conseguem. Porém, Amy começa a ter dúvidas se o bebê viria em boa hora, pois sua vida profissional vai maravilhosamente bem. Já Jake não admite o aborto, repudia a terapia e acredita que Amy não é fiel a ele.

Às sextas-feiras, oh my god. O melhor dia de todos. O Dr. Paul Weston, parecendo carregar um piano nas costas após uma semana de consultas intermináveis, recorre a Gina (Dianne Wiest), psicóloga aposentada e ex-mentora de Paul. Na primeira sexta-feira do programa, Paul decide ligar para Gina, pois quer conversar. Os dois não se viam há anos, desde que uma briga os separou. Neste meio temo, Gina perdeu seu marido, completou 60 anos, se aposentou e começou a escrever um livro com suas memórias. Quando indagado por Gina sobre o porque de seu telefonema, Paul afirma estar perdendo a paciência com seus… pacientes.

O melhor de tudo é que se você não gosta de um dos pacientes ou da dinâmica que tal dia da semana tem, pode simplesmente pular aquela seção e ir para outra, se bem que não recomendo fazê-lo, pois pequenos detalhes podem se desencadear ao fim de tal episódio e não ter nenhuma relação com o paciente do dia.

Tratamento pós Sopranos

O mais impressionante é a atuação de Gabriel Byrne como Paul, um sujeito de 50 e poucos anos, dois filhos e uma filha e um casamento mais para lá do que para cá. Paul atende em seu próprio lar e é acusado por sua mulher Kate (Michelle Forbes), de ser um psicólogo cheio de gás em seu consultório e um velho sem vida dentro de qualquer outro cômodo de sua casa.

A veracidade das consultas, daqueles 22 minutos de televisão onde o paciente fica de frente para Paul contando de sua vida é de um realismo absurdo. A série é viciante a um ponto que você não quer saber o que vai acontecer na próxima seção de tal paciente: apenas o próximo episódio já basta. Talvez não seja uma questão de vício que nos prende em frente a TV e sim a esperança de achar ali, um pouco do que vivemos aqui.

Talvez Em Terapia seja demais para nós, a frente de seu tempo, não sei. Ou talvez Gabriel Byrne seja aquele ator que não nos cansa, que nos faz ter vontade de ficar vinte horas com a cara colada na TV enquanto magistralmente imita todos os “errs”, “hmmms” e outros ruídos diversos que psicólogos da vida real rugem quando confrontados com nossas indagações tão mesquinhas e mundanas.

Após o fim de Família Soprano, é o segundo show que a HBO leva ao ar cujo um escritório de psicanálise é o tema principal da série (o primeiro foi Tell Me You Love Me). Pelo visto os executivos da emissora estão desesperadamente precisando de terapia. Eu também. Todos os dias.

* * *

In Treatment estréia nesta segunda-feira (12/5) na HBO e será exibida de segunda a sexta, à partir das 20h25.


Editor


Pedro Beck é jornalista e crítico de TV.


Contato:
pedrobeck@gmail.com

Categorias

Advertisements